TEORIA DO CONHECIMENTO II

Uma teoria metafísica do conhecimento

 Quando me tiraram as vendas, eu vi…

Rubi Rodrigues[1]

APRESENTAÇÃO

A presente exposição da Teoria Metafísica do Conhecimento, publicada, originalmente no site das Segundas Filosóficas (RODRIGUES, 2017), objetiva tornar a tese acessível a um número maior de pessoas. Conscientes de que aquele texto oferecia dificuldades de entendimento, mesmo para quem já detivesse alguma bagagem filosófica, e tendo em vista a conveniência de universalizar esse método formal de pensar, a sua tradução para uma linguagem acessível a todos impôs-se necessária, desde que compreendemos as suas potencialidades civilizatórias.

Embora entendendo não reunirmos habilidades para tal empreendimento, fomos levados a tentar. O presente texto é fruto dessa tentativa e deve ser tomado como provisório, à espera que algum comunicador nato se interesse e produza uma versão realmente acessível a todos os homens.

Nesse esforço, sacrificamos, em alguma medida, a precisão conceitual e valorizamos os significados mais comuns das palavras, buscando, assim, facilitar o entendimento. Os acadêmicos que enfrentarem estranheza em algum ponto procurem saná-las junto ao texto original.

Encontramos o ideal comunicativo desejável na mitologia egípcia, que converteu as cinco leis universais da criação em uma família de deuses, cuja história, aclimatada ao contexto físico do Vale do Nilo[2], explicava, metaforicamente, a atuação das forças na configuração da existência local e, assim, gerava a harmonia social pela sintonia de todos, com as forças divinizadas da natureza. Hoje, talvez seja necessário um mito planetário ou um culto ao conhecimento, ambos distantes das nossas habilidades.

De qualquer forma, a tese metafísica sobre o conhecimento pretende instrumentalizar os homens para o uso consciente, organizado e metódico da faculdade de pensar, mostrando que o ato de pensar e de interpretar está, irrevogavelmente, sujeito a leis universais, tal como toda a diversidade biológica do planeta também está. Estima-se que a universalização desse conhecimento possa permitir à espécie humana navegar, de modo mais tranquilo e competente, pelo mundo.

[1] Rubi Rodrigues é economista, pesquisador em Metafísica, escritor e membro da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal e da Sociedade Brasileira de Platonistas.

[2] Para uma descrição do mito egípcio: Gadalla, 2001. Para uma discussão da correspondência dos personagens do mito com as leis da criação: Rodrigues, 2015.

PLANO DE APRESENTAÇÃO DA TESE

  1. A importância e o propósito de uma Teoria do Conhecimento
  2. Por que temos sucesso em ciências da natureza e fracassamos em ciências sociais
  3. O segredo do sucesso do Egito Imperial e da Grécia Clássica: o universo é um cosmos – organizado
  4. O erro de Einstein e o acerto de Pitágoras: um cosmos exige um índice
  5. O índice: o algoritmo da criação
    • Estrutura e construção do mundo objetivo
    • Estrutura e funcionamento da razão
    • A construção do humano
    • A realização plena do humano
  6. A tragédia humana decorrente de um modo equivocado de pensar
  7. Um futuro possível

 DESENVOLVIMENTO

A espécie humana considera-se inteligente, porque o homem se conduz na vida, de forma mais ou menos consciente, com base em suas interpretações do mundo e das circunstâncias. Nessas condições, caso ocorra que o seu modo de olhar distorça a realidade e revele um mundo que não corresponda aos fatos, o homem estará encrencado e, com certeza, mais dias, menos dias, vai enfrentar problemas. Aliás, pelo andar da carruagem, mundo afora, com miséria e fome persistindo em amplas regiões, com os governos revelando-se impotentes para resolver problemas e garantir bem-estar e segurança à população, com a persistência do argumento da força, em conflitos religiosos, étnicos e ideológicos, produzindo crescentes contingentes de refugiados, e, enfim, com o comprometimento das condições planetárias de sustentação da vida, dir-se-á que a espécie humana já está encrencada: não consegue reverter tendências estruturais nefastas e, no médio prazo, compromete a própria sobrevivência.

Ora, essa situação não combina e não reflete a presença e o predomínio de uma espécie inteligente no planeta. Uma espécie inteligente não permitiria as atrocidades que continuam atingindo grandes contingentes humanos, seja por ação ou por omissão deliberada, seja por ignorância dos seus membros. Como contra-argumento, pode-se dizer que o homem tem conquistado avanço tecnológico prodigioso, ampliado a duração média da vida, produzido alimentos em escala inusitada e perscrutado galáxias distantes, em evidente indicação de que dispõe de inteligência. E temos de convir que isso também é verdade. Mas, em assim sendo, estamos vivenciando um paradoxo. De um lado, estamos produzindo um vertiginoso avanço tecnológico e, de outro, permitindo a persistência de miséria e de sofrimento humano, em parte expressiva da população. Diante desse quadro, não é preciso ser um gênio para perceber que alguma coisa está errada e que convém reconhecer um fato evidente: demonstramos possuir inteligência para algumas coisas e, também, demonstramos acentuada ignorância para outras.

Como pode ser isso? Ser inteligente em algumas coisas e, ao mesmo tempo, ser ignorante em outras? Embora, em muitos aspectos, Teoria do Conhecimento seja ainda uma questão pendente, prevalece o entendimento de que a qualidade da ação humana depende da qualidade do discernimento humano. Significa isso que, quando lemos corretamente o que se passa no mundo e reagimos de acordo, damo-nos bem e, quando fazemos uma leitura que não corresponde à realidade, damo-nos mal. Com isso, resta conclusivo que o desempenho do homem na vida depende criticamente da sua capacidade de ler e de interpretar corretamente o mundo e as circunstâncias, isto é, de fazer uma leitura que, efetivamente, corresponda aos fatos.

Em tais condições, pode-se caracterizar o conhecimento como uma interpretação que, em alguma medida, corresponde à realidade e, por isso, faculta uma ação adequada. Na mente humana, o conhecimento manifesta-se como um saber agir de modo adequado, nas diferentes circunstâncias, e, nas atitudes humanas, manifesta-se como uma ação adequada. Observe-se que o conhecimento será adequado não apenas na medida em que corresponder à realidade, mas também segundo as necessidades do usuário. Alguém que pretenda dirigir um automóvel precisa conhecê-lo em alguma medida, menos do que um mecânico que pretenda fazer a manutenção e o reparo desse veículo. Um engenheiro mecânico que projeta carros e promove a evolução e o aperfeiçoamento de veículos precisa conhecê-los ainda mais. Com isso, resta patente que, embora o conhecimento tenha sempre que corresponder, em alguma medida, à realidade, essa medida ou o grau de profundidade do saber necessário podem variar em cada caso, de acordo com os interesses envolvidos. Convém destacar, ainda, que conhecimento não se confunde com informação, particularmente quando se trata de um saber transmitido por um veículo de comunicação, com a intenção de influenciar comportamentos humanos e que pode, virtualmente, não ter compromisso com a verdade. Portanto, nem toda informação veiculada constitui ou pode ser tomada por conhecimento confiável, e quem não souber distinguir o falso do verdadeiro candidata-se a ser enganado, estando em evidente desvantagem na vida.

Em consequência, pode-se caracterizar o problema da interpretação adequada – isto é, da interpretação que corresponda à realidade – como sendo o problema da produção de conhecimentos corretos, que é uma das questões centrais da Teoria do Conhecimento. Em face dessa compreensão, entendemos que o propósito de uma teoria do conhecimento deve ser esclarecer e especificar o processo de obtenção e de geração de conhecimento, visando a instrumentalizar o ser humano com recursos cognitivos que o habilitem ao uso metódico e competente da razão e do discernimento. Quem domina conscientemente os seus recursos mentais e é capaz de pensar de forma organizada e metódica consegue também ler e entender, corretamente, o mundo e as circunstâncias, sendo, por isso, considerado inteligente ou sábio. Portanto, quando um professor orienta seus alunos para o estudo da Teoria do Conhecimento, pretende que eles se tornem mentalmente competentes e independentes, em termos, sábios – não confundir com eruditos, que são pessoas que leram muito e, por isso, sabem muitas coisas. Não se trata de erudição, mas de sabedoria e de inteligência, o que significa que o estudo da Teoria do Conhecimento é muito mais pretencioso, importante e essencial do que outros estudos que visam a ensinar a fazer uma coisa ou outra: a Teoria do Conhecimento visa a ensinar a pensar metódica e corretamente, visa a tornar as pessoas espertas, de sorte a também não se deixarem enganar facilmente.

Muito bem, se tudo isso é sabido, por que temos tanto sucesso ao tratar de certas coisas, particularmente nas áreas de ciência e de tecnologia, e fracassamos de forma tão escandalosa em outras, tais como na administração e na organização política e no desenvolvimento social e cultural, que ainda impõem sofrimento a uma parte tão significativa da população mundial? Na busca de respostas para tais questões, debruçamo-nos sobre Teoria do Conhecimento, pois nos pareceu evidente estarmos com problemas em nosso modo de ver o mundo e de interpretar as coisas. Se em alguns casos, interpretamos, agimos de acordo e obtemos sucesso e, em outros, ao contrário, interpretamos, agimos de acordo e fracassamos, resta evidente que o problema está localizado na interpretação: de algum modo ou por alguma razão, por vezes, pensamos errado e produzimos conhecimentos equivocados. Será possível corrigir isso?

Vejamos. Fazemos nossas interpretações pensando e organizando ideias na intenção de que a compreensão resultante corresponda à realidade dos fatos que estamos examinando. Interpretação, compreensão, ideias e pensamentos não são coisas visíveis, são apenas inteligíveis, são elementos que apenas existem na mente. Já as coisas materiais como as árvores, as casas, os animais e tudo o que constitui matéria, ao contrário, não são inteligíveis, são apenas visíveis, ainda que perceptíveis também com os demais sentidos orgânicos de percepção. De uma casa, o que podemos pensar é as suas propriedades, as formas, a aparência, as dimensões, enfim, o seu projeto e as suas características, mas não a sua materialidade. Essa distinção entre o visível e o inteligível é de fundamental importância para que se consiga entender por que estamos cometendo erros de interpretação[3]. Para perceber o visível, utilizamos os sentidos orgânicos e, em particular, a visão possibilitada pela luz. Para perceber o inteligível, usamos o cérebro e a consciência, valendo-nos das lógicas, que são as leis do pensamento.

Assim como podemos pensar errado, podemos também enxergar errado. Para ver, usamos os olhos e a luz. Podemos ter defeitos nos olhos, o que atrapalha a visão, e também podemos usar óculos, lentes, telescópios, microscópios e outras ferramentas mais sofisticadas que permitem aperfeiçoar nossa visão e, com elas, ver melhor. Caso, porém, escolhermos um recurso inadequado, fracassaremos. Se alguém, por exemplo, pretender olhar estrelas no céu e escolher o microscópio para isso, não vai ver nada. Da mesma forma, se alguém tiver a pretensão de pesquisar micróbios e escolher um telescópio ou usar apenas os próprios olhos, também não vai ver nada. A mesma situação acontece com o pensamento e a interpretação das coisas inteligíveis. Caso usemos um modo de pensar que contemple algumas coisas e despreze outras, também geramos compreensão equivocada. É isso que está acontecendo hoje e provocando a nossa cegueira quando se trata, particularmente, de questões políticas e sociais. A persistência de miséria, de fome e de dor em extensas regiões demonstra que o nosso modo de ver o mundo está equivocado, uma vez que continuamos permitindo condições humanas aviltantes, o que uma espécie inteligente não admitiria para nenhum dos seus membros.

Assim como para ver corretamente, precisamos de olhos, óculos ou uma lente que seja adequada, assim também para pensar corretamente, precisamos de um referencial adequado. Referencial é o modelo mental interpretativo que usamos para recepcionar, entender e julgar as informações que, mentalmente, recebemos e processamos. Vamos entender melhor o que seja isso. Para ver, contamos com um

[3] Todos os sentidos humanos de percepção são especializados: o ouvido ouve, o tato sente texturas e formas, o paladar sente sabores, a visão enxerga a matéria em sua aparência, a consciência atribui significados e interpreta-os. Nenhum dos sentidos pode perceber ou fazer o trabalho de outro.

recurso natural que são os olhos. Quando eles se mostram insuficientes, adotamos uma ferramenta auxiliar, como um microscópio ou um telescópio. Da mesma forma, para pensar e julgar as coisas, a vida concede-nos um recurso, em certa medida, natural, que são as nossas crenças e as coisas que aprendemos no curso da vida, as experiências que a vida nos proporciona bem como a tradição cultural dentro da qual crescemos. Com base nessa cultura e nessa experiência, pensamos, entendemos e julgamos as coisas.

O que está claro é que esse referencial “natural” (cultura e experiência pessoal) não está sendo suficiente para conduzir a civilização humana a bom termo. Talvez, quando a população era pequena e vivia-se em pequenas comunidades, em meio a uma natureza, com abundância de recursos, eventuais erros apenas afetassem os indivíduos que os cometessem. Com o aumento da população e o crescimento das pressões de sobrevivência, porém, erros de governança, em particular, passaram a afetar enormes contingentes populacionais. A situação social lastimável que presenciamos em amplas regiões do planeta revela-se insofismável e está requerendo um referencial mais poderoso, uma ferramenta que nos auxilie a pensar com mais competência e nos permita entender aquilo que está escapando de nossa compreensão e determinando os fracassos identificados.

Por que a ciência tem alcançado mais sucesso? A razão é simples: a ciência procurou, para além da cultura e da experiência pessoal, identificar leis da natureza que fossem gerais e fixas em todos os lugares e em todas as culturas e, com isso, conseguiu desenvolver tecnologias incríveis que têm contribuído de modo importante para o bem-estar dos homens. Para isso, os cientistas desenvolveram um referencial concebido sob medida para facilitar e conduzir o trabalho científico, com ótimos resultados. Tanto assim que avanços e conquistas tecnológicas surgem em todo lugar onde cientistas conseguem dedicar-se ao seu labor, com um mínimo de condições e, muito importante, independentemente da cultura local. Ao que tudo indica, a cultura regional não afeta o trabalho científico, embora condições sociais precárias sejam, naturalmente, determinantes das condições de trabalho disponíveis, o que afeta a escala de produção e o grau de sofisticação da produção científica.

A razão disso é que o labor científico possui ferramentas e métodos formais de trabalho que regulam os procedimentos científicos e são mais poderosos e eficientes do que o conhecimento aprendido, naturalmente, no percurso existencial e na experiência particular de vida de cada um. Quando o cientista está sendo formado, ele aprende que certos métodos e certas técnicas são adequados para resolver certos problemas. Ele não vai reinventar esses métodos e essas técnicas, ele acredita neles e os aplica na prática e, só então, vai constatar se eles, de fato, funcionam. Por vezes, descobrem que, em alguns casos, eles não funcionam muito bem e merecem reparos, ensejando assim que tais recursos sejam aperfeiçoados. Assim se explica por que avança e se aperfeiçoa o trabalho científico. Em adição, é importante ter em mente que a comunidade de cientistas do mundo é uma pequena parcela da população que recebeu formação especializada e reforçada nos aspectos que, para esse labor, são importantes.

Quando se trata de questões não científicas, como organização social, regras de convivência, governança política, sistema educacional, infraestrutura social e processo civilizatório, em geral, a primeira diferença que surge é que agora se trata da população toda: o problema envolve a população toda e não apenas uma pequena parte dela, ainda que a governança seja exercida por uma pequena parte e não por todos. A segunda diferença é a baixa eficiência e produtividade dessas funções que nem de longe se compara com o resultado obtido nas ciências. Existem profissionais

que se intitulam cientistas sociais, é verdade, mas esses profissionais normalmente costumam tomar o fato social como uma realidade dada e procuram elaborar teses sobre as razões que o determinam ou lhe dão origem. Valendo-se, em boa parte, de técnicas de comparação entre realidades sociais distintas, conseguem elaborar convincentes justificativas históricas e culturais para elas, mas têm pouca propensão para se aventurar pela seara das prescrições, em razão de justos motivos lógico-estruturais, diga-se de passagem. Na prática, por mais competentes que sejam as análises de tais profissionais, as virtuais soluções cabíveis sempre deparam-se com a escala gigantesca da população planetária e com diferenças e limitações socioculturais desanimadoras.

Um modo sempre lembrado para minimizar tais problemas é a formação adequada dos gestores públicos, os quais também são uma minoria, tal como a dos cientistas, e, nessa condição, poderiam receber educação diferenciada e tornarem-se tão eficientes quanto os cientistas. Mas isso justamente esbarra nos problemas já mencionados, relativos às nossas limitações interpretativas: qual é a formação que se deveria dar a tais gestores para que se tornem aptos a gerir o interesse coletivo? Os objetos das ciências são, invariavelmente, elementos da natureza, e essa natureza possui comportamento constante e estável, regulado por leis de abrangência universal. Com isso, a ciência, ao descobrir tais leis, conquista elementos seguros para conduzir o labor científico. Quando se trata, porém, do convívio social, as leis não são permanentes e estáveis como aquelas. São elaboradas por homens, eleitos mediante critérios políticos e raramente preparados para legislar, de sorte que tais leis não possuem tampouco a consistência interna e, menos ainda, o ajuste preciso com o contexto, que são característicos e típicos das leis naturais. De outro lado, a sociedade humana formada por seres dotados de inteligência variável, de livre arbítrio ainda incompreendido, de desejos mutantes e instintos animais forjados em condições dramáticas de sobrevivência configura território pantanoso, aparentemente pouco propício para construções estáveis e duradouras.

Ou será que o que nos falta é compreensão adequada do problema humano e tecnologia que seja própria para construir, com segurança, em tal terreno? Nesse sentido, o Egito imperial representa exemplo histórico enigmático. Independentemente das condições que caracterizaram aquele império, precisamos reconhecer a longevidade daquele modelo social. Ainda que nos três ou quatro milênios de história, mais ou menos conhecida, o império tenha experimentado altos e baixos, ao que tudo indica, persistiu, em todo o período, certo padrão organizativo básico, sugerindo que a concepção diretiva ali adotada guardava consistente aderência à realidade da natureza e dos homens de então. Sem essa aderência, não há como explicar tal longevidade. Caso assim não fosse, não teria subsistido um tempo que se conta em milhares de anos. Esse exemplo egípcio fornece-nos evidência concreta de ser possível organização social dotada de razoável estabilidade. Também evidencia que os gestores do império detinham modo muito eficiente e realista de ler a natureza e interpretar o mundo e as circunstâncias, pois, sem isso, o império teria sucumbido antes, e os feitos conhecidos seriam irrealizáveis.

Os nossos estudos sobre Teoria do Conhecimento não partiram desse exemplo do Egito imperial nem mesmo do outro grande feito civilizatório que marca a nossa história, representado pela Grécia Clássica, responsável por direcionar a evolução humana no sentido da racionalidade, mas decorreu de perplexidade pessoal sobre a inexistência de método formal de pensar, em meio a uma civilização tecnológica, caracterizada por uma ciência metodologicamente formalizada. Não nos parecia razoável que, em meio a operações laborais crescentemente eficientes, em

razão da adoção e do aperfeiçoamento de métodos de trabalho, o exercício da razão permanecesse desprovido de método formal, ao sabor de idiossincrasias e humores individuais. Depois de trinta e cinco anos de pesquisa, conseguimos formalizar uma Teoria do Conhecimento que tem o mérito de satisfazer o nosso espírito e nos harmonizar com o universo e a natureza que nos envolve, por nos instrumentalizar com um modo mais adequado e fidedigno de ver o mundo. Somente então é que constatamos que esse mesmo modo de olhar o mundo foi que permitiu o milagre da Grécia Clássica e os feitos incríveis do Egito imperial. Descobrimos mais: descobrimos que esse modo de olhar o mundo foi cultivado e preservado durante toda a história humana, por homens que perceberam o seu valor estratégico e dedicaram a sua vida a essa preservação, motivados apenas pela esperança de que algum dia a humanidade pudesse estar madura para adotá-lo, genérica e universalmente, e fazer desabrochar as suas potencialidades civilizatórias.

Registros históricos indicam que, em todos os tempos, algumas mentes, em alguma medida, apropriaram-se desse modo de pensar e externaram pensamentos que são próprios dessa perspectiva, representando preciosidades perceptivas que a todos encantam em razão de todos intuírem de que se tratam de verdades, isto é, de ideias e de entendimentos que correspondem à realidade, ainda que entre tais legados, virtualmente, também possam existir equívocos. Os pré-socráticos em geral e, particularmente, Parmênides, Pitágoras e Platão inscrevem-se entre aqueles que, em alguma medida, utilizaram o referencial. Os últimos dois legaram-nos registro expresso desse modo de pensar, e toda a obra platônica somente adquire consistência interna e revela-se um sistema filosófico completo à luz desse modo de pensar. Sinais e indícios desse modo de pensar também estão presentes em Aristóteles, Filón de Alexandria, Plotino, Amônio Saca, Porfírio, Jâmbico e Proclo, entre os neoplatônicos. João Evangelista, Jesus, Zoroastro e os principais nomes da espiritualidade oriental também indicam comungar da mesma perspectiva, ainda que, em cada caso, circunstâncias particulares tenham imprimido colorações próprias. Na cultura marginal, há registro de certa corrente dourada que teve origem no Egito imperial e que, no percurso histórico, envolveu alquimistas, rosa-cruzes e maçons, entre outros, voltada, precipuamente, para a preservação desse conhecimento, em clara evidência de que sempre houve homens conscientes do seu valor potencial. Esse modo de ver o mundo foi preservado como um tesouro da humanidade, como uma chave secreta capaz de abrir para a espécie humana um novo, superior e inusitado estágio de civilização e de bem-estar.

 O fato de essa preservação ter seguido caminho histórico marginal à cultura predominante indica, também, que os detentores do poder político nunca viram esse saber com bons olhos, o que resulta perfeitamente compreensível, de vez que esse conhecimento torna seus detentores mentalmente independentes e imunes à submissão e à dominação imposta por outros homens. Esse saber forma homens que tendem a apenas admitir organização social que lhes preserve a liberdade.

As circunstâncias atuais da humanidade, com a intensa troca de informações pela rede, o desprestígio geral dos políticos, o vencimento do modo estatal monárquico de organização das sociedades e o crescente comprometimento das condições planetárias de sustentação da vida, em face de um modo insustentável e perdulário de consumo de recursos, configuram, quer nos parecer, oportunidade histórica para o resgate e a universalização desse conhecimento, uma vez que se impõe a necessidade da união consciente de todos os membros da espécie humana, no cuidado do seu destino e no cultivo de condições favoráveis de sobrevivência e de evolução.

Pensamos que, talvez, este seja o momento adequado para se universalizar esse modo de ver o mundo. A internet está aí disponível e não é necessário pedir licença a ninguém para distribuir e para aprender conhecimento. Aprender é uma decisão pessoal que não depende de autorização. Esse conhecimento não é ideológico, ao contrário, revela a totalidade das coisas e mostra que todas as ideologias tradicionais são fajutas e não se sustentam. Ele não pretende convencer ninguém de algo específico, apenas fornece um modo de olhar o mundo, uma ferramenta, que vão revelar, no mundo, coisas que antes não apareciam, ficavam escondidas. Com isso, cada um, ao ver mais, ao ver o que antes não via, realizará suas próprias interpretações e constatará, por si mesmo, se esse modo de olhar lhe convém e o torna mais competente na leitura e na interpretação da realidade. Nada pode ser mais honesto do que isso. É você, caro leitor, que decide se quer ou não aumentar a sua própria capacidade cognitiva. Se quer ou não ver melhor e, consequentemente, tornar-se mais inteligente. É você que decide se quer traduzir e espalhar esse conhecimento por todos os povos da Terra. É você quem decide se esse projeto é bom para a humanidade e se envolver-se com ele traz-lhe satisfação e bem-estar. Depois de estudar e consultar o seu coração, envolva-se com o projeto, apenas se isso lhe trouxer a satisfação de estar participando de algo que realmente lhe pareça importante.

Assumir esse modo de olhar implica mudança de perspectiva. Educados sob a hegemonia do modo científico de olhar o mundo – que foi definido por Descarte, Einstein e Popper – todos nós, homens modernos, acreditamos no que vemos com os olhos do corpo que a natureza nos deu e pensamos que todo o universo está contido no espaço à nossa frente. Na paisagem visualizada, percebemos apenas a presença e a forma material dos objetos e o fato de que alguns deles se movimentam de um lado para outro. A ciência moderna, ela mesma, define correta e adequadamente a amplitude do espaço, como sendo constituída de três dimensões: largura, altura e profundidade. Dado que altura, largura e profundidade são consideradas infinitas, fica subentendido que todo o universo visível resulta capturado e contido no espaço. Esse é o modo de olhar o mundo que a ciência moderna adota e nos ensina. Esse modo científico de olhar está equivocado, na medida em que deixa partes importantes do mundo de fora. Está equivocado, ressaltamos, como modo científico de olhar o mundo, uma vez que um olhar que se pretenda científico precisa enxergar toda a realidade e não apenas uma parte dela. Um olhar científico não pode limitar-se a partes ou à aparência das coisas.

É diferente quando estamos descansando, apenas apreciando a beleza de uma paisagem e nos deleitando com ela, apenas desfrutando do prazer de um momento de sossego. Nesse caso, contentamo-nos em apreciar a aparência, as formas e as cores das coisas que nos chegam aos olhos e não temos interesse algum para além disso. A ciência não pode contentar-se com a aparência, pois precisa conhecer a essência das coisas, precisa conhecer aquilo que determina que a coisa seja aquilo que é e não outra coisa distinta. Na verdade, nem mesmo a ciência moderna contenta-se com a amplitude do espaço, pois o fato de os objetos movimentarem-se no espaço indica que, para além das três dimensões espaciais, é indispensável considerar a presença de uma quarta dimensão, correspondente ao tempo. Sem o tempo, não pode ocorrer movimento. Sem a inclusão do tempo, os cálculos científicos não fecham, e Einstein foi quem demonstrou isso, ao afirmar que o tempo era o quarto número: um, dois e três, relativos às ordenadas do espaço, e o quarto, relativo ao tempo.

Ele não falou que o quarto número correspondia à quarta dimensão, porque isso comprometeria a concepção cartesiana de universo contido no espaço, exigindo que a ciência avançasse pelas outras instâncias não materiais da realidade. Usou como saída uma arbitrária instância espaço-temporal que foi considerada irredutível pela ciência e, consequentemente, entendida como localidade capaz de abranger toda a existência[4]. Os cientistas, naturalmente, deram-se conta da manobra de Einstein, mas deixaram as coisas assim, tendo em vista que não estava disponível solução melhor e que, mesmo mantendo o foco limitado ao espaço, havia muito trabalho por realizar. Além disso, incluir formalmente instâncias não materiais no objeto da ciência complicaria muito as coisas. O avanço das ciências no século XX justifica, virtualmente, essa decisão, mas os problemas simultaneamente acumulados, como vimos, estão a indicar que essa posição precisa ser revista, caso se queira desviar da pós-modernidade tenebrosa já desenhada e construir futuro digno de ser vivido.

Para tanto, precisamos observar que a caracterização do espaço como tendo três dimensões constitui forma adequada e elegante de indicar a amplitude do mundo visível aos nossos olhos. As três dimensões indicam certa amplitude da existência, embora não indique a amplitude total da existência, como a própria presença do tempo já atesta. Essa solução presta-se muito bem para o trabalho científico, na medida em que as ordenadas cartesianas permitem localizar, precisamente, os pontos no espaço e, assim, possibilitar os cálculos de que a ciência se vale, os quais resultaram no desenvolvimento tecnológico vertiginoso constatado a partir de então. Trata-se, porém, de ciência da matéria, do espaço e do tempo e não de ciência do que existe em ato, no mundo. Ora, se a caracterização dimensional do espaço revelou-se tão útil para a ciência, por que não usar o mesmo critério para caracterizar toda a existência? É compreensível que a ciência tenha interesse em restringir o seu foco à matéria visível e até que persista uma ciência específica voltada exclusivamente para ela, mas isso não nos autoriza a reduzir a existência à materialidade e ao tempo. O fato de o tempo não ser visível já invalida o critério da visibilidade como índice definidor da existência. A existência estende-se para além do visível, como a própria ciência quântica está evidenciando. Portanto, já está na hora de os cientistas dirigirem-se a todos os homens e esclarecerem que a solução espaço-temporal de Einstein, embora útil para certos trabalhos científicos, não pode ser tomada como indicação da amplitude total da existência e que, para se olhar o mundo de modo adequado e correspondente, visualizando a existência em toda a sua extensão, impõe-se entender que a complexidade do universo se constitui desdobrando instâncias dimensionais cumulativas e que, em razão disso, cumpre adotar visão dimensional da natureza, para que o homem adquira visão do mundo que corresponda à realidade[5].

Trata-se de reconhecer que a redução da existência à tridimensionalidade, que é a amplitude precisa para recepcionar ou comportar espaço e matéria, ou mesmo a uma suposta instância espaço-temporal de quatro dimensões configura um equívoco. Reconhecer que o mundo precisa disponibilizar uma amplitude de três dimensões para comportar o espaço e a matéria exigiria, por coerência lógica,

[4] Einstein (2017), na verdade, por escrito, reconheceu formalmente que a localidade da ciência, definida como espaço-tempo, era arbitrária (p. 85) e que desejável modelo mais amplo – teoria unificada do campo – implicaria superar o contínuo espaço-tempo (p. 92).

[5] Einstein (2017, p. 85) chegou a examinar uma solução proposta por Kaluza e Klein, que previa uma quinta dimensão, e considerou-a tão arbitrária como a sua. O algoritmo da criação preconiza também cinco instâncias, mas a quinta instância é a da totalidade unitária. Faltou-lhes a fundamentação metafísica.

reconhecer igualmente que o tempo configura uma quarta dimensão da realidade. O fato de as três ordenadas cartesianas e do próprio tempo admitirem ser convertidas a números, para possibilitar os cálculos da Física, não autoriza converter também a existência a número. Assim, insistir na restrição da localidade da ciência ao espaço-tempo de Einstein implica deixar de fora das considerações tudo o que possui amplitude distinta de três e de quatro dimensões. É por essa razão que os esquemas científicos não conseguem recepcionar o ser, a alma, a memória e a consciência humana. O ser possui amplitude unidimensional por ser indivisível. A memória e a alma ou, em outros termos, a inteligência organizativa potencial – tal como o código genético – possuem amplitude de duas dimensões, do mesmo modo como, por exemplo, a geometria euclidiana. A consciência constitui totalidade que transcende o âmbito dimensional e unifica os entes e os fenômenos em unidades existenciais individuais, fato que possibilita tanto a diversidade fenomênica do mundo como a nossa percepção individualizada dos fenômenos. Não estamos falando aqui nada de novo. Platão, no diálogo Filebo, discute exaustivamente a diferença que existe entre a unidade indivisível – representada pelo ser – e a unidade complexa constituída de partes, representada pela totalidade. Pensando o ser como ponto e a totalidade como esfera, percebemos que ambos são unidades e que não existe contradição em considerar que o um pode ser tanto uno indivisível como múltiplo composto de partes.

Deixando de lado as justificativas metafísicas e ontológicas complicadas, o fato é que apenas uma visão dimensional da realidade respeita certo modo de ser que é padrão da natureza e revela-se com grande evidência, ao indicar que a complexidade edifica-se sempre do simples para o complexo. Adicionalmente, convém destacar que não se encontra isolado na natureza algo que corresponda ao conceito analítico de parte. Ao contrário, a natureza apenas comporta totalidades. O leitor pode observar ao seu redor e ver que tudo que chamamos de parte, na verdade, são totalidades bem constituídas que, inteligentemente unidas e articuladas entre si, propiciam a formação de unidades mais complexas, também na forma de totalidade. O próton, o elétron e o nêutron, que fazem parte do átomo, são totalidades, da mesma forma que cada átomo também é um todo. Assim, também, a molécula formada por átomos é um todo, e assim constituem todos, também, os entes vegetais, os animais, o ser humano, o planeta, a galáxia e o próprio universo. Perpassa todo o universo uma escalada de crescente complexidade, na qual cada instância de complexidade alcançada repousa e transcende de uma instância de complexidade imediatamente inferior e serve, por sua vez, de alicerce para uma instância ainda mais complexa, tal é a forma de constituição e de evolução da complexidade universal e de tudo que nele existe, sempre partindo do mais simples para produzir algo mais complexo.

Ora, para que cada estágio de complexidade transcenda o estágio anterior e constitua um todo unitário fechado, tal como a superfície da esfera, é indispensável que exista uma fórmula que regule e normatize essa construção de totalidades, de tal modo que todas as totalidades sejam iguais e o conjunto universal constitua-se, também, em um todo perfeitamente organizado, isto é, constitua um cosmos, tal como já percebido pelos gregos clássicos. Apenas em razão de o universo constituir um todo organizado, um cosmos inteligentemente organizado, é que se torna possível compreendê-lo.

Na verdade, o que se entende – não só do universo, mas de todas as coisas que compõem e integram o mundo existente – é, justamente, essa organização que determina que as coisas sejam o que são e não sejam algo distinto disso. Cada fenômeno existente em ato, neste universo, é específico e diferente dos demais, em razão de uma organização que é típica e privativa de cada um. Conhecer um objeto

significa, portanto, entender a sua organização específica e as propriedades que essa organização lhe confere, isto é, conhecer a inteligência organizativa que molda e determina o objeto.

Embora cada fenômeno tenha uma organização privativa, todos existem na forma de totalidade, que é a forma segundo a qual a existência pode manifestar-se em um universo evolutivo como o nosso. Isso, como já mencionamos, implica que tudo o que existe existe segundo uma mesma e única fórmula universal, que regula, normatiza e estabelece o modo de ser ou de existir admitido. Essa fórmula, como vimos, parte da simplicidade do ser e desenvolve complexidade crescente até atingir o estágio de totalidade, no qual o fenômeno em construção adquire o status de existência em ato. Trata-se, portanto, de uma fórmula que cria e estabelece existência. Trata-se de uma inteligência criativa que é própria e natural de um universo relativo que teve começo, tal como o nosso. A ciência deve preferir designar essa fórmula de algoritmo da criação, uma vez que se trata de fórmula lógica, matemática e geométrica invariante, que regula e normatiza toda a existência. Com isso, quem conhece esse algoritmo da criação conhece o modo de existir que é comum a tudo o que existe, isto é, conhece a estrutura organizativa básica, a estrutura existencial de tudo o que existe e sabe o que precisa estudar, em complemento, para entender também a inteligência organizativa e as propriedades de um objeto ou de um fenômeno particular.

Dado que se trata de um universo organizado, essa fórmula que constrói totalidades define não apenas a essência constitutiva de todos os objetos percebidos, mas também a essência constitutiva da mente humana que executa os atos de percepção. Tratando-se de algoritmo da criação único, ele representa, naturalmente, a fórmula criativa comum tanto dos fenômenos objetivos como dos fenômenos subjetivos. Com isso, resulta que a inteligência criativa do objeto de conhecimento é a mesma inteligência criativa do sujeito que conhece, do objetivo e do subjetivo, da matéria e da consciência. No objeto, essa inteligência criativa gera e estabelece o objeto na existência, na forma de uma totalidade, configurada por uma dada inteligência organizativa. No sujeito, a inteligência criativa gera e estabelece uma consciência fechada em unidade, apta para entender tanto a inteligência criativa como a inteligência organizativa do objeto. Esse conhecimento expressa-se na forma de inteligência interpretativa correspondente, isto é, na forma de pensamentos e de ideias, os quais se espera que sejam representativos do objeto.

Embora se tenha notícias de antecedentes egípcios, o algoritmo da criação foi representado pela primeira vez, em linguagem familiar à cultura ocidental, por Pitágoras, que, segundo consta, viveu por longos anos, no Egito, e conquistou, por mérito espiritual e dedicação ao saber, o reconhecimento dos sacerdotes e teria sido aceito e iniciado nos altos mistérios da cultura sufis. Na condição de matemático, Pitágoras traduziu e expressou a inteligência criativa da existência na forma da seguinte equação algébrica: [1 + 2 + 3 + 4 = 10] e denominou-a de década sagrada. Com base nessa década sagrada, fundou uma ordem místico-religiosa, segundo os historiadores, a qual, na verdade, era uma comunidade fortemente coesa e espiritualizada, por comungar de conhecimento que demonstrava racionalmente que a existência se estende por “instâncias espirituais” situadas para além do mundo visível. Era uma comunidade-escola, na qual todos aprendiam a “ver” as instâncias não materiais da realidade, o que tornava os pitagóricos respeitados pelo seu discernimento e pela sua moderação. Além disso, tiveram influência política regional notável em certo período, mas acabaram destruídos por um déspota que Pitágoras havia recusado admitir na comunidade. Grande parte da comunidade foi assassinada, e o restante dispersou-se.

A década sagrada é conhecida dos estudiosos de Filosofia Clássica, mas o seu entendimento perdeu-se no tempo, embora persista a desconfiança de que não se tratava, meramente, de equação algébrica. As nossas pesquisas estão demonstrando que se trata de estrutura gerativa. Nos nossos dias, o modo mais adequado e claro de expressar essa estrutura é descrevê-la em linguagem geométrica, ressaltando tratar-se de estrutura dimensional.

Figura 1 de TC

Figura 1 – O algoritmo da criação.

Essa descrição dimensional destaca as amplitudes crescentes que cada ente ou fenômeno precisa desdobrar para estabelecer-se na existência, na forma de totalidade. Cada uma dessas cinco instâncias possui amplitude diferenciada, e cada amplitude possibilita a manifestação de um conteúdo específico daquela amplitude. Como se trata de estrutura gerativa, trata-se, também, de estrutura cumulativa, na qual os conteúdos se somam até atingirem a compleição de totalidade, condição na qual ganham assento estável na existência. Dado que o fenômeno apenas passa a existir em ato, na instância de totalidade, as instâncias dimensionais que antes se somam para viabilizar e suportar essa existência são designadas de instâncias ontológicas. O termo “antes” acima mencionado não indica precedência no tempo, indica apenas precedência em termos de complexidade[6]. O tempo só começa a contar a partir de quando a totalidade se estabelece em ato, na existência, o que significa que podemos considerar meramente potenciais os conteúdos das quatro dimensões e considerar que a realização efetiva das partes se dá, simultaneamente, por ocasião do alcance da forma de totalidade.

Observe-se que a década sagrada de Pitágoras, ao utilizar não uma linguagem geométrica, mas matemática [1 + 2 + 3 + 4 = 10], destaca mais claramente que os conteúdos se somam do um ao quatro, para, então, atingir a forma de totalidade, o que mostra que as duas descrições são complementares e que a estrutura se edifica, combinando recursos geométricos de forma e recursos matemáticos de quantidade. Adiante, ainda se verá que a esses recursos de forma e de quantidade somam-se, ainda, na constituição da estrutura, recursos de movimentos, os quais são determinados pela amplitude de cada instância e tipificam cinco padrões lógicos, porque potencializam, na mente, movimentos inferenciais (padrões de pensamento) típicos.

A tese da existência de uma fórmula única, configurada por lógica, geometria e matemática, capaz de explicar como toda a existência resulta gerada, estabelece-se na forma de entes e de fenômenos unitariamente individualizados e configura o universo como um todo organizado e coerente, constitui a única razão a

[6] Uma coisa pode ser anterior à outra de duas maneiras. A vida humana pode ser dividida em fases, tais como, infantil, adolescência, adulta e idosa. Essa é uma sequência temporal, de sorte que podemos dizer que a adolescência antecede, temporal ou historicamente, a fase adulta. Outra sequência possível é do tipo, partícula quântica, partícula atômica, átomo, molécula, organismo. Essa é uma sequência que indica um caminho de complexidade crescente, de sorte que podemos dizer que o átomo antecede a molécula em termos de complexidade. A sequência ontológica é desse último tipo, posto que não envolve tempo nem constitui uma série histórica. Para compreender corretamente o algoritmo da criação, precisamos entender que se trata de estrutura ontológica e não de estrutura temporal.

justificar a pretensão humana de entender o universo. Aliás, mais do que isso, a existência dessa fórmula única resulta também indispensável para justificar o próprio surgimento da consciência na natureza, uma vez que conhecer significa entender os nexos lógicos ou a inteligência organizativa que configura tudo o que faz parte e existe neste universo. E, se não fosse para alcançar esse entendimento, não haveria tampouco razão para o advento da consciência. Em mundo caótico, sem ordem e sem lógica, a razão não teria qualquer utilidade.

Em termos funcionais, a tese do algoritmo da criação defende a ideia de que absolutamente tudo o que existe, quer se trate de fenômenos objetivos ou de fenômenos subjetivos, possui um ser específico e sob medida para essa forma de existência. Esse ser é a energia originária que, desdobrando as quatro instâncias ontológicas de base, instala o ente ou o fenômeno na existência, na forma de totalidade. Esse ser é, portanto, uma energia criadora, e o algoritmo da criação é a fórmula (lógica, geométrica e matemática) indicativa das etapas que o processo de criação precisa cumprir até atingir o estágio de totalidade, no qual fica configurada ou emerge uma existência em ato.

Em todos os casos, o ser é o construtor do que vem à existência e, no caso dos seres vivos, esse ser-energia é o portador da energia vital que vai caracterizá-lo como ser vivo, cuja ausência indicará a sua morte. A presença da consciência nos humanos permite que constatemos a presença desse ser, na forma de intelecto operador da nossa mente, nos atos de meditação. Quando pensamos em nós mesmos, em meditação de autoconsciência, percebemos não apenas que existimos e temos uma consciência capaz de entender como também percebemo-nos como operadores da nossa consciência e autores dos nossos pensamentos. Quando meditamos, percebemos que somos nós mesmos que estamos pensando, identificamo-nos como autores dos pensamentos e compreendemos, sem sombra de dúvidas, que, em última instância, nós somos esse ser interior que opera a nossa razão e que, por detrás dos olhos, eventualmente, observa a paisagem. Esse é o ser que nos constitui como exemplares da espécie humana. Esse é o ser ao qual nos referimos, quando dizemos eu.

Sendo impossível recusar a presença desse ser em mim, quando medito, posso, no entanto, estar tão distraído com o mundo exterior, a ponto de não perceber que esse ser existe, a ponto de não ter consciência de mim mesmo e limitar-me a me perceber apenas nos papéis sociais que desempenho na vida, como pai ou mãe, como filho ou filha, como estudante, como profissional, como religioso e, enfim, apenas como manifestação de uma dada personalidade humana. Nesses casos, de extrema distração, o ser que constitui esse eu interior não consegue emergir e se pronunciar e fazer com que a inteligência se desenvolva. Ao contrário, fica adormecido e latente, preso ao mundo visível, à espera de uma oportunidade para mostrar ao homem as infinitas potencialidades que estão ali latentes e desperdiçadas[7]. Daí que a primeira coisa a se fazer é parar, respirar fundo, esquecer o mundo exterior e convocar o ser para a leitura.

Sabemos que existe um ser em todos os animais. Existe um ser no sapo que se realiza na vida de sapo, isto é, sendo sapo e não outra coisa, assim como também percebemos, nitidamente, que existe um ser no cão de estimação que nos olha com carinho e dedicação. Nos demais fenômenos do mundo vegetal e do mundo mineral bem como nos fenômenos naturais ou nos eventos sociais ou privados, é mais

[7] Esta Teoria do Conhecimento apenas pode ser útil ao leitor capaz de reconhecer em si a presença desse ser interior. Trata-se de conversa direta entre seres interiores, e somente eles podem entender o que está sendo dito. A personalidade humana apenas sabe das coisas do espaço e do tempo.

difícil perceber a presença do ser. Uma indicação forte é o fato de que os nomes pessoais dados aos homens e às coisas referem-se, na verdade, ao ser que os constitui e que não muda com o curso da vida. O ente que indica a totalidade de um homem tanto quanto a personalidade humana muda com o tempo, de sorte que, para indicar sempre o mesmo, o nome precisa referir-se ao ser. Da mesma forma, quando nominamos algo, estamo-nos referindo ao ser que individualiza o fenômeno em consideração. Outra indicação da presença de um ser em tudo é dada pelo próprio algoritmo da criação, segundo o qual tudo é criado e cuja primeira dimensão apenas possui amplitude para recepcionar o ser, que nos parece ser o único elemento objetivo unidimensional detectável pela razão.

Segundo a tese do algoritmo da criação, o ser emerge no mundo relativo a partir de uma instância absoluta, por meio de um movimento designado transcendental. Isso quer dizer que o advento do ser no mundo relativo – da mesma forma que a saída dele desse mundo – não configura transição entre a existência e a não existência, mas, sim, transição entre diferentes planos da existência. Sem entrar na metafísica que justifica isso, podemos ater-nos ao fato óbvio de que do nada não se pode extrair alguma coisa e que do absoluto se pode extrair, virtualmente, qualquer coisa. Consequentemente, alguma coisa que exista não pode deixar de existir, pode apenas passar de um plano da existência para outro. Para evitar as justificativas técnicas sem deixar de explicar, voltemos ao exemplo da molécula de água. Quando dois átomos de hidrogênio unem-se a um átomo de oxigênio, em dadas condições, surge uma molécula de água que, antes, não existia. Não existia em ato no plano existencial das moléculas, mas existia em potência no plano existencial dos átomos. Caso, no plano das moléculas, existissem moléculas inteligentes observando, elas diriam que nasceu uma molécula nova e, quando a união dos três átomos se rompesse, diriam que uma molécula morreu. Um olhar mais abrangente perceberia, entretanto, que nada disso aconteceu e que apenas ocorreram transcendências entre instâncias contiguas da existência.

No caso do homem, o ser estabelece-se no instante em que óvulo e gameta se fundem e geram a grande célula, que, depois, por desdobramento reiterado, irá formar o feto, que resultará em um bebê e assim por diante. Observe-se que o ser da grande célula emerge no mesmo instante em que os seres – do óvulo e do gameta – submergem. É um ser único que vai conduzir o processo de formação e de constituição do ente em construção. Esse ser é o portador da energia vital e do impulso para a complexidade indispensável para realizar a ontogênese desde a fecundação até a velhice. Para essa construção, esse ser valer-se-á de códigos genéticos trazidos pelo óvulo e pelo gameta, os quais resultam de herança genética dos pais, historicamente acumulada por certa linha de sucessão.

Esse código genético constitui o capital inicial de que o ser dispõe para realizar o seu empreendimento. Constitui uma inteligência organizativa potencial, definidora dos espaços de possibilidade dentro dos quais a ontogênese e a maturação do ente humano podem realizar-se. Trata-se de inteligência organizativa meramente potencial, porque, no curso da vida, algumas potencialidades terão oportunidade de florescer e outras permanecerão apenas latentes, por terem sido desfavorecidas ou inibidas por circunstâncias particulares. Essa inteligência organizativa potencial não cabe em amplitude de apenas uma dimensão, ela requer amplitude de duas dimensões e resulta ser um conteúdo próprio e específico da instância de duas dimensões do algoritmo. A geometria euclidiana representa outro exemplo inteligível da presença de conteúdos de duas dimensões. Ela possui amplitude que permite a

evolução das formas do plano e, também, revela a inteligência estrutural das formas geométricas.

Embora o modelo do algoritmo da criação indique que o ser não pode deixar de existir, mas, apenas passar de um plano existencial para outro, o nosso domínio do modelo ainda não nos permitiu deduzir se o ser que emerge na primeira dimensão, para constituir um ente determinado, já possui ou não experiência anterior de constituição de outro ente da mesma espécie ou de espécie diferente. Essa dúvida resulta de três constatações. De um lado, sabemos que evolução somente pode acontecer em presença de memória que guarde e disponibilize o que se apreendeu anteriormente. Com isso, resulta indispensável que o próprio universo contenha um tipo de memória, uma vez que se trata de um universo evolutivo. A segunda constatação é que memória configura inteligência organizativa potencial e, como tal, cabe ou encontra abrigo, sob medida, na instância (amplitude) de duas dimensões do universo. A terceira é a constatação de que, na sua evolução, os seres humanos objetivos não parecem limitar-se às potencialidades obtidas por herança genética e sua realização, por vezes, avança muito além disso, tornando evidente que o ser se vale, também, de inteligência organizativa potencial oriunda de outra fonte, virtualmente, dessa memória universal. Não é ainda possível afirmar, entretanto, se a familiaridade do ser com essa inteligência universal decorre de experiência anterior ou de acessos realizados durante e vida em curso. O que se sabe é que o homem evolui por ser criativo, e a criação realiza-se por operação intuitiva de meditação, na qual o intelecto, invariavelmente, volta-se para uma memória inconsciente.

Uma vez estabelecido o ser como conteúdo objetivo da primeira instância e a inteligência organizativa potencial como conteúdo objetivo da segunda instância e, além disso, esclarecido que o ser é o agente edificador da existência, a estrutura toda praticamente fica revelada, uma vez que os conteúdos das instâncias seguintes, de três e de quatro dimensões, são nossos conhecidos, na condição de espaço e de tempo, respectivamente. No caso do reino animal, a terceira dimensão recepciona os organismos biológicos, e a quarta faculta o funcionamento dos organismos e provê o tempo existencial com o qual se viabiliza a ontogênese e o desenrolar da vida. A estrutura completa-se na quinta instância de totalidade, pelas razões já discutidas, entre elas a de que a existência em ato apenas realiza-se na forma de totalidade unitária.

Tratando-se de estrutura criativa que opera acumulando novos conteúdos sobre as instâncias precedentes, o percurso dimensional – da primeira à quarta dimensão – afigura-se mais ou menos evidente para a cultura científica tradicional. O mais estranho para essa cultura é o advento do ser na primeira dimensão e a passagem da quarta dimensão para a totalidade, na quinta instância, pois esses dois casos envolvem mais ostensivamente movimentos de padrão transcendental, que é o padrão de movimento capaz de explicar a emersão de novo fenômeno em algum plano de existência, o que já discutimos com o exemplo da molécula de água. A ciência, por restringir o seu olhar aos conteúdos da terceira e da quarta dimensão, entende que tudo é imanente à matéria e que a evolução representa apenas atualização do que já está contido na matéria. Essa solução da imanência não se sustenta por algumas razões que vão ficar evidentes no curso da análise do mundo visualizado pelo algoritmo da criação, mas é evidente que considera a matéria como constituindo existência em ato, isto é, como delimitadora da totalidade, quando o ser humano não pode ser reduzido ao seu organismo. Além disso, mistura potência e ato em flagrante contradição com o seu espírito analítico.

O problema maior situa-se, porém, na sua recusa da transcendência, que, hoje, constitui padrão lógico já perfeitamente formalizado e representa a única maneira de explicar como uma unidade pode ser gerada a partir de uma multiplicidade. Sem isso, não é possível explicar como se edifica a complexidade universal. Em particular, a instância de totalidade contempla a inteligência organizativa efetivamente realizada e, em razão do salto transcendental, justifica que o processo instaure, na instância de totalidade, realidade de natureza distinta do presente, na quarta dimensão, que comporta apenas ser, inteligência potencial e matéria em movimento. A única instância superior cabível, no caso humano, é a consciência que, de modo geral, já se reconhece possuir natureza distinta e não fazer parte da materialidade cerebral orgânica que instrui o ente humano. O argumento definitivo é, porém, o fato de a consciência ser una e não estar sujeita às limitações espaciais e temporais presentes na terceira e na quarta dimensão[8], o que indica, portanto, que a consciência transcende o tempo e o espaço, de sorte que apenas uma visão dimensional da realidade disponibiliza um esquema referencial capaz de recepcioná-la.

Uma vez esclarecido, em linhas gerais, como opera o processo criativo do algoritmo, cumpre ressaltar que cada uma das cinco instâncias destacadas no esquema, em razão de contemplar amplitude privativa, possibilita padrão de movimento também privativo de cada instância. Dado que o algoritmo da criação também regula o funcionamento da mente, cada padrão de movimento opera, na mente, como movimento inferencial próprio que possibilita modo de pensar específico. Com isso, podemos entender esses padrões de movimento inferencial como leis do pensamento ou como padrões lógicos. Dessa forma, cada padrão de pensamento obedece a uma lógica própria, e os pensamentos assim gerados apenas aplicam-se aos conteúdos típicos das respectivas instâncias.

Considerando que o algoritmo abarca toda a extensão da existência, podemos concluir que os cinco padrões de pensamento indicados na estrutura contemplam todos os modos de pensar facultados ao ser humano e que a faculdade humana de pensar fica toda mapeada e especificada formalmente.

[8] A consciência, manifestada em pensamento, desloca-se instantaneamente no espaço e no tempo, como qualquer um pode constatar, sem tomar conhecimento das leis que vigoram no espaço e no tempo, uma indicação robusta de que a consciência está situada fora do espaço e do tempo.

Reunindo essas conclusões em um único esquema, obtemos o seguinte resultado.

Figura 2 TCII

Figura 2 – Conteúdos objetivos e subjetivos destacados e ordenados pelo algoritmo da criação.

Esse esquema não apenas organiza a racionalidade humana, indicando quais são os aspectos da realidade aos quais cada modo de pensar se aplica, mas indica também qual a lógica que regula cada modo de pensar e, muito importante, indica também as lógicas que não se aplicam a um caso dado e que costumam ser usadas na construção dos sofismas que enganam pessoas.

Esse aspecto da aplicação correta do pensamento afigura-se tão importante para uma teoria do conhecimento que, mesmo antes de discutir os diferentes padrões de pensamento, vale a pena elaborar mais um esquema mostrando que, tomando-se o algoritmo da criação por referência, cada modo de pensar não só obedece a uma lógica específica, como também se aplica a apenas um dos aspectos ou modos de ser, que se somam na constituição essencial do objeto que se quer conhecer. O esquema, a seguir, ressalta a correspondência inescapável que relaciona os modos de pensar (S) com os modos de ser (O).

Figura 3 de TC

 

Figura 3 – Correspondência objetiva dos padrões de pensamento.

Como os dois esquemas anteriores tentam mostrar, os padrões humanos de pensamento são dimensionais, ainda que as pessoas não tenham consciência disso e, tampouco, percebam que eles visam a aspectos específicos que apenas uma organização dimensional da realidade permite destacar. A tese do algoritmo da criação defende que esses são os padrões de pensamento com os quais o homem está instrumentalizado – de S1 a S5 – e com os quais pode interpretar o mundo e a natureza, não existindo pensamento humano algum que não se enquadre em um desses padrões e, tampouco, havendo a possibilidade de existência de um padrão humano de pensamento distinto desses. Da mesma forma, a tese do algoritmo da criação advoga que a natureza objetiva apresenta conteúdos distintos em cada uma das instâncias dimensionais indicadas – de O1 a O5 – e não contempla conteúdos distintos desses. A tese defende, ainda, que as lógicas que regulam os padrões de pensamento constituem movimentos inferenciais correspondentes aos movimentos existenciais que definem os modos de ser dos conteúdos objetivos das instâncias dimensionais respectivas, razão pela qual aquele padrão de pensamento pode perceber ou sintonizar aquele modo de existir. Com isso, a tese preceitua que cada padrão de pensamento apenas aplica-se ao conteúdo objetivo da instância dimensional em que se situa e não possui capacidade de contemplar conteúdos de amplitudes distintas. Isso implica também entender que todo pensamento humano obedece a uma das cinco lógicas e que não é possível pensar ou executar um movimento inferencial que não obedeça a uma das cinco lógicas. Nesse sentido, as lógicas regulam e delimitam nossa capacidade de pensar.

Observe, o leitor, que os esquemas das Figuras 2 e 3 organizam a cabeça de quem pensa – o sujeito – e organizam, também, o fenômeno ou a natureza que se quer compreender – o objeto–, de um modo inusitado, conferindo ao ato de olhar e de interpretar o mundo uma organização que nenhuma das teorias pregressas logrou conseguir. Dado que o modelo se estende da unidade indivisível do ser até a totalidade do ente, todo o âmbito da existência resulta compreendido nos esquemas, o que representa garantia de que não deixa mundo de fora. Dessa forma, caso nos empenhemos em compreender e dominar completamente essa ferramenta, deveremos, naturalmente, tornar-nos capazes de realizar interpretações mais competentes e completas.

Até aqui, desenvolvemos o texto sob a tensão contrária de duas intenções. De um lado a intenção de facilitar o entendimento de pessoas sem familiaridade com filosofia e, de outro, a necessidade de incluir, no texto, um mínimo de fundamentação, para conferir credibilidade à tese. Em outro texto[9], a tese foi desenvolvida com maior atenção aos requisitos científicos que se impõe. Daqui em diante, tentemos priorizar ainda mais a comunicação e o entendimento, na intenção de facultar ao leitor um primeiro exercício de uso da nova ferramenta.

Doravante, o desenvolvimento far-se-á tomando os esquemas das Figuras 2 e 3 como referência, da mesma forma que o leitor fará ao se exercitar no uso desse referencial. Um recurso mental adicional que ajuda no entendimento consiste em utilizar figuras geométricas para visualizar as instâncias e os conteúdos. Por exemplo, visualizar o ser como um ponto e o todo como uma esfera, tal como os pitagóricos faziam. Quando se estiver objetivando os padrões de movimento, vincular as amplitudes de cada instância dimensional a figuras geométricas indicativas da respectiva amplitude, tendo em vista que é a amplitude que determina o padrão de movimento. Assim, vincular a primeira dimensão à figura da reta ideal que justamente resulta do movimento de um ponto em certo sentido. Vincular a segunda dimensão à figura do plano ideal que, tal como a reta ideal, tampouco possui espessura. Vincular a figura da esfera para indicar a amplitude de três dimensões. Vincular a figura do cone espiralado para indicar a quarta dimensão e a evolução do tempo e, finalmente, vincular a figura da superfície da esfera para indicar a totalidade no âmbito da

[9] Rodrigues, 2017.

multiplicidade. Utilizemos, então, essas figuras para entender os conteúdos de cada instância.

Na instância de uma dimensão, cabe um ser em movimento existencial. A figura é a da reta. Como é que se traça uma reta? Deslocando um ponto em um sentido qualquer, tal como, da esquerda para a direita. Exatamente da forma como traçamos uma reta no papel. O ponto é definido, na Matemática, como um lugar no espaço desprovido de dimensão, isto é, sem espessura. Ora, se não tem espessura, também não tem dimensão. Mas o ponto, na primeira dimensão, está em movimento existencial, daí porque usar a reta ideal para representar a instância e a presença do ser[10]. Qual é o movimento admitido no âmbito da reta? É o mesmo que realizamos ao traçá-la no papel. Em dado momento, a reta começa ou aparece no papel, estende-se por um tempo e, depois, para e não continua. Observe que o movimento contempla três momentos: ele surge, estende-se por algum tempo e, depois, cessa. Surgir, persistir e cessar. Perceba que esse é o movimento existencial de todo ser: em dada ocasião, emerge na existência, estende-se por um tempo e, depois, desaparece da existência. Esse padrão de movimento do ser fica claro no ciclo de vida do ser humano, mas, na verdade, é uma lei universal, pois já se constatou que as próprias estrelas nascem, desgastam-se e morrem.

Saindo um pouco dessa análise, vale a pena observar que o algoritmo da criação, ao destacar o surgimento do ser, na primeira dimensão, faz duas coisas que a ciência atual descuida. Primeiro, indica que a origem do ser é uma instância de existência absoluta, da qual o ser provém por transcendência, cuja análise não pertence ao âmbito de uma teoria do conhecimento, mas que indica que a religiosidade humana não pode ser tomada como delírio irracional. Sem uma instância absoluta, não há como justificar, ontologicamente, o surgimento do universo. Segundo, observe-se que o modelo do algoritmo da criação exige que, em toda análise, de qualquer fenômeno, impõe-se ter em mente essa lei universal primeira, asseverando que tudo possui um ciclo existencial determinado, inclusive quem realiza a análise e tenta entender o mundo. Logo, convém que o analista tenha em vista e em consideração não só o ciclo existencial do objeto, mas também o seu próprio ciclo e se esmere em aproveitá-lo inteligentemente. Daí, a importância de pleno domínio da faculdade de pensar, que é o recurso do qual se utiliza para conduzir a vida. A presença da consciência de que tudo está encerrado em ciclos existenciais limitados constitui um dos preciosos elementos de lucidez e de sabedoria potencializados pelo modelo.

Voltando à análise, esse ser que emerge, na primeira dimensão, como um ser unidimensional assemelha-se, ao menos em termos de amplitude, à sua origem absoluta com a diferença de se tratar de um ponto em movimento, enquanto a tendência seria representar o absoluto como um ponto absolutamente estático e sem movimento. Ainda não nos foi possível entender todas as implicações desse fato, mas uma coisa resulta bem clara: o mundo relativo caracteriza-se pelo movimento, resultando impossível encontrar, nele, fenômeno ou ente em plena imobilidade. A existência relativa caracteriza-se pelo movimento. Para o ser, esse fato implica, no mínimo, duas consequências. Primeiro, que todo ser é determinado pelo movimento e destina-se a constituir um ente determinado e não a constituir um ente qualquer. O ser já emerge para ser homem, por exemplo. Segundo que, sendo a natureza da existência relativa movimento, não há nada que se oponha ao movimento existencial

[10] Caso se tratasse de ponto estático, indicaria algo desprovido de dimensão, localizado em instância anterior à primeira dimensão, na sequência do algoritmo, e, nessa condição, caracterizaria instância de existência absoluta, conforme discutido na tese original.

do ser, fato que indica e explica a potência do impulso para a complexidade que anima o ser e justifica a evolução organizativa do universo. A tese do algoritmo defende ser o ser e o seu impulso para a complexidade que edificam o mundo.

O caráter determinado do ser e o fato de estar destinado a constituir um ente ou um fenômeno também determinado exigem que, na segunda dimensão, esse ser seja instrumentalizado com uma inteligência organizativa potencial que possibilite ao ser realizar a existência em ato a que se destina. O algoritmo indica que essa criação se dá por acumulação de conteúdos, de sorte que, na segunda dimensão, estão presentes tanto a inteligência organizativa potencial que é própria da instância como o ser determinado que surgiu na primeira. A esse conjunto – de ser mais inteligência potencial – a tradição designa de alma ou de espírito. Essas designações parecem-nos pertinentes, dado que os seus significados indicam, a par de significados religiosos, a inteligência organizativa potencial que molda e delimita o ser humano efetivamente realizado. Essa inteligência organizativa potencial, que tem origem última na natureza matemática, lógica e geométrica da existência relativa, já está sendo estudada pela ciência, na condição de código genético. Dada a economia do processo criativo, no âmbito da biologia, ao menos parte dessa inteligência organizativa potencial resultou registrada quimicamente no DNA, de sorte a viabilizar o processo de preservação de caracteres hereditários. Observe-se que esse código genético, embora registrado quimicamente, representa memória com a qual o biológico otimiza o processo de reprodução e capitaliza sucessos anteriores.

Essa inteligência organizativa potencial determina os espaços de realização franqueados ao fenômeno em formação. No caso do homem, essa inteligência potencial delimita até onde a realização humana pode dar-se, mas indica, igualmente, todas as potencialidades disponíveis, segundo a natureza da espécie. A realização dessas potencialidades dar-se-á, em partes, no organismo biológico da terceira dimensão, no processo histórico de socialização, ontogênese e de amadurecimento e em termos de desenvolvimento mental e de discernimento da consciência. A importância da devida consideração da inteligência organizativa potencial presente na segunda dimensão fica clara nos estudos genéticos, em que a correção de anomalias presentes nos registros, prometida para breve, deve superar as doenças hereditárias que causam tanto sofrimento. Esse mesmo potencial está presente, no que se refere ao convívio e à integração social e ao desenvolvimento cognitivo, que são objetos das instâncias superiores. Com respeito aos conteúdos dessas duas instâncias superiores, certamente também existem características “hereditárias” positivas e negativas, na condição de recursos potenciais virtualmente determinantes de espaços de possibilidade de evolução e de aperfeiçoamento do indivíduo. Descuidar do conhecimento dessas potencialidades latentes pode comprometer a formação das futuras gerações, tanto pelo cultivo e preservação de características que mereceriam ser superadas como pelo desleixo de potencialidades superiores que deveriam ser cultivadas.

No caso humano, precisamos considerar, igualmente, a origem animal da espécie e o fato biologicamente comprovado de que o homo sapiens resultou de um filo que brotou do ramo dos hominídeos, no processo evolutivo da árvore da vida. Isso implica, de um lado, ter em mente que a razão que nos distingue surgiu como evolução realizada sobre base puramente animal; ou seja, que a racionalidade humana se edifica sobre alicerce perceptivo que opera instintivamente nos animais inferiores. De outro, significa que o homem preserva, na bagagem perceptiva, base instintiva desenvolvida, sobretudo, na fase hominídea puramente animal. Isso implica a presença de uma fera potencial dentro de cada um, que não se trata de uma fera qualquer. No início dos tempos, o homem foi a caça preferida e mais fácil dos carnívoros. Sem presas, sem cascos e sem cornos para se defender, sem couraça, sem pelos e sem couro para dificultar, o sangue doce oferecia-se, imediatamente, à primeira mordida. Ainda por cima, lerdos para fugir e com filhotes sem agilidade para subir em árvores e se pôr a salvo, não é difícil imaginar o drama e o terror experimentados por mães encurraladas por predadores, sabendo que, caso ela perecesse, os filhos também não teriam chance. Terá, porventura, alguma mãe sido obrigada a optar por um dos filhos? Foi enfrentando tais condições que a espécie humana desenvolveu os seus instintos de sobrevivência. Somente na medida em que a civilização evoluiu, esse registro pode ser empurrado para o fundo do baú, mas está ali, latente, embaixo das experiências propiciadas pela civilização.

O processo de evolução criativa que o algoritmo evidencia estende-se a todo e qualquer processo formativo, de sorte que esse aprendizado de terror e adrenalina acima mencionado também teve o seu aspecto positivo no longo prazo, constituindo forte motivação para o crescimento do cérebro e o despertar da consciência no hominídeo, pressionado a encontrar alternativa para o enfrentamento da dramática situação. É natural e compreensível, portanto, que tanto o domínio da razão como a superação dos instintos realizem-se em processos evolutivos, nos moldes do algoritmo da criação. Nesses termos, cumpre entender que o feto humano recebe como herança inteligência organizativa potencial que tanto comporta instintos animais de sobrevivência desenvolvidos pela espécie quanto a herança civilizatória da comunidade onde nasce e cresce. Os instintos animais, a julgar pela condição limitada do discernimento animal, parecem estar impressos no código genético e ensejar comportamentos instintivos virtualmente inescapáveis, embora animais domesticados indiquem que, em certa medida, eles também conseguem superar alguns. A ciência ainda não sabe em que medida e de que forma características de civilidade possam constituir herança transmissível. O que resulta mais seguro afirmar é que a proficiência no uso da razão constitui desenvolvimento cultural a ser realizado pela consciência que se forma com o feto. Pelo que se constata na prática, a consciência experimenta evolução vertiginosa, no bebê e na criança, de sorte que o indivíduo em crescimento desenvolverá aquelas potencialidades que forem cultivadas e deixará de lado as que forem inibidas ou desfavorecidas. Somente essa conclusão já enseja cuidadosa atenção aos conteúdos da segunda dimensão, particularmente para quem se preocupe com a correta formação dos seres humanos.

No entanto, a importância do algoritmo da criação e da segunda dimensão também aplica-se, de modo crucial, aos projetos e aos artefatos humanos. Em um veículo, em uma máquina ou em qualquer criação humana, a segunda dimensão contempla o projeto do que foi construído ou se quer construir. Caso o projeto não seja bem concebido, o resultado tende a não dar certo. E isso vale para todas as atividades humanas e para todos os projetos sociais. A segunda dimensão contempla a inteligência organizativa potencial e nela inclui-se, por exemplo, a estrutura daquilo que se está projetando. Não adianta pretender que um governo seja democrático se as estruturas funcionais organizam-se em desacordo ou em franca oposição aos procedimentos que caracterizam uma democracia. O que o algoritmo da criação nos ensina é que, em política, não é uma eleição nem a escolha de pessoas que importam, mas o planejamento e o projeto do Estado que definem o regime político e o modo de governar. Se o regime político é dito democrático (o nome dado ao ser é democracia), a estrutura e a inteligência organizativa potencial precisam ser viabilizadoras disso, não podem ser próprias para viabilizar um império, por exemplo. Pela mesma razão, o DNA de um sapo não produz e não pode produzir um gato.

Observe-se que a posição ontológica da inteligência organizativa potencial ou da alma, no início da estrutura cumulativa que gera os fenômenos, mostra o papel e a importância decisiva que essa inteligência desempenha no resultado da criação e torna inequívoca a responsabilidade do planejamento, quando o resultado final não corresponde ao prometido e, até mesmo, no processo de aprovação do projeto elaborado. Com isso, muitas desculpas esfarrapadas ficam desmoralizadas, e a responsabilização pode ser atribuída com mais clareza, particularmente em empreendimentos governamentais que se utilizam de recursos públicos e não podem ser desperdiçados por gestores incapazes.

A instância seguinte revelada pelo algoritmo da criação que possui amplitude de três dimensões comporta a energia organizada e condensada em densidade que tipifica o que chamamos de matéria e, em geral, o mundo visível. No caso animal e humano, contempla a materialidade do organismo que, em razão da forma peculiar de organização, potencializa funcionalidades. Não contempla ainda as próprias funcionalidades porque o funcionamento apenas pode dar-se no tempo e este apenas será introduzido na quarta dimensão. A Antroposofia[11] já cuidou de separar e distinguir essas duas instâncias de modo adequado e compatível com o que nos ensina o algoritmo da criação. Essa concepção designa o conteúdo material da terceira dimensão de corpo físico, considerando-o similar ao mundo mineral, e designa as funcionalidades automáticas do organismo como corpo etérico, no qual também inclui o impulso vital. Embora o algoritmo da criação não abone todos os princípios da concepção antroposófica, admite particular proximidade com os dois princípios citados e, também, no entendimento de que pensamento e pensado possuem elementos comuns.

Tentando resumir os conteúdos atribuíveis à terceira dimensão, usando como referência o corpo humano, que é mais conhecido, diríamos que ela comporta o corpo físico dotado de recursos aptos a realizar as funcionalidades, mas que o funcionamento delas apenas pode dar-se com o advento do tempo. Isso significa que o olho e a capacidade de ver constituem elementos da terceira dimensão, mas o exercício da visão exige a presença do tempo e realiza-se na quarta. Tratando-se de estrutura cumulativa, cumpre observar que a terceira dimensão comporta o ser, a alma ou a inteligência organizativa potencial e o suporte material ou o organismo que possibilita a existência animal nas circunstâncias que emolduram e recepcionam a totalidade em construção.

Com o desdobramento da quarta dimensão e o advento do tempo, o que de específico da instância surge é o processo histórico e o tempo existencial no qual se dá ou se pode dar a ontogênese, e fica facultado ao ente construir uma história de vida. Essa história constrói-se pelas interações dialéticas que o ente realiza com o meio ambiente e com os demais fenômenos que participam das suas circunstâncias. Podemos considerar que a história se faz vivenciando uma sucessão contínua de circunstâncias e que cada uma delas pode ou não ser favorável ao sucesso e à realização de quem as enfrenta. Algumas dessas circunstâncias são impostas pela natureza e resultam virtualmente inevitáveis, mas a grande maioria delas depende da nossa habilidade de fazer escolhas.

Para uma gestão eficaz do percurso existencial, dois fatores são decisivos. De um lado, a capacidade mental de discernimento e de leitura adequada do mundo e das circunstâncias, de sorte a ser capaz de prever e evitar as circunstâncias desfavoráveis ou das quais não tenha nenhum controle e fique entregue ao acaso

[11] Teoria filosófica criada por Rudolf Steiner (1861-1925).

fortuito das conjunções. E também para, intencionalmente, projetar e construir circunstâncias que sejam favoráveis à realização de seus projetos – algo que vale tanto para a vida privada como para a vida pública e a ação política. De outro lado, os sentidos orgânicos de percepção – o paladar, o tato, o olfato, a audição e a visão –, que são recursos destinados a orientar a convivência da matéria orgânica, com a matéria dos demais fenômenos com os quais convive e que participam das suas circunstâncias. Isso porque, em razão da densidade que caracteriza a matéria, duas matérias não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo e, caso isso não seja respeitado, uma ou as duas, normalmente, resultam danificadas ou destruídas.

Vale destacar que os sentidos orgânicos de percepção constituem recursos da terceira instância, enquanto o entendimento é fruto da consciência que se situa na quinta instância, de sorte que as suas funções são distintas e não se confundem. Nesse sentido, o algoritmo da criação efetua criteriosamente essa separação, enquanto uma visão unitária do tipo espaço-tempo mistura tudo e leva os incautos a entender que seja possível pensar o visível. Os sentidos orgânicos podem apenas perceber a materialidade dos fenômenos. A essência constitutiva deles situa-se fora do alcance dos sentidos orgânicos de percepção, de modo que resulta absolutamente irracional olhar o mundo, atendo-se apenas ao que é visível. Por isso, diz-se que quem se limita ao mundo visível é um ser adormecido que vive no mundo das ilusões – a ilusão da aparência visual das coisas – e não percebe a sua essência inteligível. Naturalmente, um sistema de ensino que se restringe ao mundo visível limita-se a produzir seres adormecidos, de fácil controle e dominação, posto que tais seres se orientam na vida, pela aparência das coisas.

Na quarta dimensão, em razão do processo cumulativo, estão presentes o ser, da primeira, a alma ou a inteligência organizativa potencial, da segunda, a materialidade ou o organismo e as suas funcionalidades da terceira e mais os movimentos da matéria, no espaço e no tempo, próprios da quarta, esse último movimento, configurando processo histórico que propicia evolução, aperfeiçoamento e ontogênese. Revisando esses conteúdos presentes na quarta instância, percebe-se que são conteúdos comuns a todos os animais e que o homem não está caracterizado, pois não menciona e não inclui a presença da consciência.

A consciência apenas apresenta-se como conteúdo da quinta instância, na qual o processo criativo culmina, na forma de totalidade, que é a forma de existência admitida em nosso universo. Na condição de unidade e em virtude de possuir natureza completamente distinta de tudo presente na quarta instância, a consciência somente pode surgir como fruto de um movimento transcendental que, como vimos no exemplo da molécula de água, constitui o único padrão de movimento capaz de produzir uma unidade. Essa consciência já estava prevista na inteligência organizativa potencial da segunda dimensão e, na condição de totalidade, representa inteligência organizativa efetivamente realizada. Essa consciência configura um órgão funcional especializado, produzido pelo ser, com habilitação para operar inteligência e produzir conhecimento consciente. Quem opera esse órgão é o próprio ser, na condição de intelecto operador da mente. Os insumos utilizados nessa operação são a inteligência criativa, representada pelo algoritmo da criação, e a inteligência organizativa realizada, que molda os fenômenos particulares. Ao produto dessa operação, convém designar de inteligência interpretativa, que se manifesta, na consciência, como entendimento, ideias e pensamentos.

Como os esquemas das Figuras 2 e 3 mostram, os padrões de pensamento e as suas respectivas lógicas apenas aplicam-se aos conteúdos objetivos correspondentes. Com isso, o modo S5 de pensar e a Lógica Holística que lhe corresponde objetivam, como exclusividade sua, a totalidade O5 dos fenômenos que se pretende conhecer, a qual é determinada por uma dada inteligência organizativa efetivamente realizada. A relação objetiva do sujeito com o objeto constitui uma relação entre totalidades existentes e, nesse sentido, poderia ser entendida como uma relação exclusivamente S5 è O5, para quem desconheça o algoritmo da criação. Nesse caso, não é possível explicar como tal relação consegue se apropriar da organização do objeto e traduzi-la em conhecimento.

Quem conhece o algoritmo da criação compreende, porém, que a relação entre sujeito e objeto dá-se em toda a extensão e em todos os modos de ser revelados pelo algoritmo da criação, tal como graficamente mostrado na Figura 3. Com isso, a percepção que o sujeito realiza do objeto ocorre em cinco instâncias diferentes, sequenciais e complementares, cada uma dispondo de recursos perceptivos adequados e exatos para perceber o modo de ser que lhe é correspondente no objeto. Naturalmente, entre todas as instâncias, a terceira dimensão desponta como a melhor aparelhada para realizar o seu trabalho de percepção[12], em razão da presença dos cinco sentidos orgânicos de percepção e da lógica de causa e efeito que preside a instância. Essa particularidade enseja, virtualmente, que a maioria dos contatos entre sujeito e objeto se inicie pela terceira instância, mas a compreensão dos demais conteúdos apenas pode dar-se mediante o uso das lógicas que patrocinam movimentos inferenciais correspondentes aos movimentos que tipificam os cinco diferentes modos de ser.

O modo S1 de pensar destina-se a perceber o ser, que é o conteúdo objetivo da primeira instância. O movimento existencial do ser, como já vimos, contempla três momentos distintos – de surgir, permanecer existente e deixar de existir ou desaparecer. Com isso, o modo S1 de pensar pode perceber algo surgir e algo desaparecer da existência e, no intervalo desses dois momentos, pode perceber a presença do existente. A toda hora, percebemos presença, e esse padrão de pensamento opera na mente humana com o mesmo movimento que o ser opera na existência. A percepção de uma presença ocorre e evita que esbarremos nela, fica na consciência por algum tempo e, depois, desaparece da consciência, porque a nossa atenção se voltou para outra coisa. Perceber presenças constitui uma das inferências desse padrão S1 de pensar. Outra inferência do mesmo padrão é o ato de recordar alguma coisa. Por vezes, temos dificuldade de lembrar algo, e a nossa mente volta-se para uma região que parece vazia, mas da qual, de repente, a lembrança emerge. Esse vazio já foi entendido como inconsciente e parece ser nele que reside a memória. Outra inferência de padrão S1 é o que chamamos de intuição. A intuição não resulta de dedução obtida por confrontação de coisas sabidas, mas parece vir, também, dessa zona aparentemente vazia que se situa para além da consciência. A intuição aparece ora como suspeita, ora como impressão indefinida e perturbadora, ora como descoberta de algo novo e inusitado, isto é, como ato criativo. É também uma inferência de molde S1 o processo de identificação de um ser, que ocorre quando, ao perceber a sua presença, temos, na lembrança, um nome que o designa. Dado que o modo S1 de pensar percebe a presença do ser, também, no verso, percebe a sua ausência e, quando surge um novo existente, no verso, também percebe a presença absoluta indispensável para lhe dar origem e, com isso, esse padrão S1 de pensamento potencializa as religiões que oferecem solução para tal origem absoluta. A Lógica Transcendental que regula esse padrão de pensamento e o próprio algoritmo

[12] Pode ser que, no futuro, essa impressão de melhor aparelhamento da terceira instância seja superada e entendida como apenas justificada na fase inicial de aprendizado de uso do algoritmo da criação.

da criação atestam essa presença, mas não nos fornecem recursos lógicos para contemplar racionalmente tal existência absoluta: nossos modos de pensar são todos relativos e limitados.

O modo S2 de pensar, regulado pela Lógica da Diferença, presta-se para pensar conteúdos de duas dimensões, tal como as diferenças, a simetria, as formas da geometria euclidiana, os códigos de toda ordem, as posições relativas das coisas, a ordem sequencial, temporária e ontológica e, enfim a inteligência organizativa estrutural que resulta da adequada combinação de forma, movimento e quantidade, isto é, de geometria, lógica e matemática. É o pensamento S2 que nos permite perceber o nexo inteligente que a natureza estabelece na constituição das coisas existentes e que permite que tais nexos sejam entendidos e articulados em sentenças reveladoras, na forma de inteligência interpretativa. A inteligência com a qual o ser edifica o universo constitui manifestação existencial típica da segunda dimensão, porque os nexos de coerência que configuram o seu tecido não demandam amplitude maior do que duas dimensões. Dado que a consciência também opera inteligência, pode-se dizer que a consciência também demanda duas dimensões para realizar as suas operações. Por essa razão, assimilamos a consciência à forma da superfície da esfera, pois suas dimensões bastam para fechar a esfera e torná-la unitária e, além disso, também basta para recepcionar as imagens que captamos pelos olhos e que, imediatamente, oferecem-se à nossa consciência, com a profusão de detalhes que chegam à nossa retina.

S3 é o modo de pensar patrocinado pela Lógica Clássica capaz de perceber os nexos de causa e efeito que envolvem a relação de matéria com matéria. O pensamento S3 é dito sistêmico, porque vislumbra o funcionamento das coisas e do próprio organismo que, operando sistemicamente, precisam operar sempre do mesmo modo. Por isso, diz-se que S3 é um pensamento conservador, pois sistema bom e útil não pode ficar variando e se comportar ora assim e ora assado. Esse modo de pensar está na base de toda manipulação humana da matéria, presidindo não apenas as construções humanas como também a concepção das ferramentas e das máquinas criadas pela ciência e pela tecnologia e que tanto facilitam a vida do homem. Toda a física da matéria baseia-se no pensamento de padrão sistêmico que indicamos por S3. No âmbito de três dimensões, localizam-se o espaço, a matéria e o mundo visível percebido pelos nossos sentidos orgânicos de percepção. Como observamos nas imagens que os olhos nos trazem, a parte material de todos os fenômenos participam do mesmo espaço universal e, nele, guardam relações físicas entre si. S3 percebe que tais relações são, às vezes, regulares, casos esses identificados como resultado da ação de princípio ou lei de causa e efeito.

São essas relações de causa e efeito que propiciam a construção das cadeias sistêmicas das máquinas e das ferramentas, razão pela qual o princípio de causa e efeito resulta tão prestigiado pela ciência atual. O algoritmo da criação confirma a presença de nexos de causa e efeito no mundo, mas o restringe à terceira dimensão da realidade, às relações de matéria com matéria e às operações inferenciais correspondentes. Dessa maneira, estender essa relação de causa e efeito para as outras instâncias ontológicas do algoritmo resulta equivocado e gera um dos mais comuns sofismas que enganam a razão humana. Para destacar a gravidade desses equívocos, basta dizer que tanto a defesa da existência de Deus como a sua negação, de forma mais elaborada, utilizaram-se do argumento do princípio de causa e efeito para justificar as suas posições. O algoritmo da criação mostra que cada uma das cinco lógicas opera apenas na sua instância e que a questão da relação entre o absoluto e o relativo é uma questão ontológica de precedência e não uma questão lógica de consequência. É claro que quem enxerga, no mundo, tudo misturado em uma única instância não consegue fazer essa distinção.

No pensamento S4, funciona outra lógica: a Lógica Dialética ou a lógica da história. Esse padrão de pensamento vislumbra a sucessão no tempo e o processo de formação da história e destaca que tudo flui e se transforma continuamente. Com esse foco, o pensamento S4 resulta ser um pensamento evolutivo e transformador. Por outro lado, a Lógica Dialética opera peculiarmente, confrontando tese e antítese, em relações predominantemente conflitivas que sempre resultam em síntese de difícil previsão. Essa síntese resultante depende de forças variáveis que animam tese e antítese e, também, da quantidade de elementos de tese e antítese que interferem no embate, de sorte que a resultante não pode ser garantida, mas apenas estimada, dentro de certo espaço de possibilidades, delimitado precariamente pela condição dos antecedentes. No processo histórico, devemos falar em antecedentes e em consequentes e nunca falar em causa e efeito, posto que o resultado, no caso de S4, positivamente, não pode ser previsto com exatidão, e causa e efeito dizem respeito a uma relação estável e a um efeito perfeitamente previsível. S4 privilegia a mudança e a transformação e, no limite, invoca a entropia, termo usado pela ciência para indicar o esgotamento da energia e a perda de organização energética e física dos fenômenos.

O pensamento S4 permite formalizar uma história, mediante o registro de fatos e eventos que se sucederam em dada região do espaço e em dado período de tempo. Esse registro histórico reveste-se de grande importância, na medida em que permite identificar as causas históricas de certas situações, permite aprender e evitar a repetição de erros do passado e, sobretudo, permite-nos compreender as condições presentes que nos desafiam. O problema dos registros históricos é que eles sempre envolvem a interpretação de quem efetua o registro, e essa interpretação depende da formação e das circunstâncias pessoais do relator. Naturalmente, existem elementos garantidores da fidelidade dos relatos, e a disciplina da História tem incorporado conquistas científicas capazes de ampliar a confiabilidade dos registros. Apesar disso, convém ter em mente que certos movimentos políticos e certas concepções ideológicas promoveram distorções intencionais em relatos históricos, com o objetivo de legitimar concepções ideológicas setoriais.

Apesar desses cuidados indispensáveis, o pensamento de padrão S4 é que nos permite perceber não só a história pregressa, mas também perceber a aceleração quase exponencial do processo evolutivo e, mais importante do que tudo isso, permite traçar, em linhas gerais, qual é o futuro que nos espera, caso sejam mantidas as tendências que o presente indica. Foi justamente preocupação com certas tendências que nos encaminhou a enfrentar a questão básica da Teoria do Conhecimento e a almejar um método que possibilite a correta interpretação do mundo e das circunstâncias. Com a ajuda referencial propiciada pelo algoritmo da criação, também torna-se possível interpretação mais acurada das nossas circunstâncias históricas e das estruturas que determinam as formas como se dão as relações sociais, e, quem sabe, consigamos assumir, conscientemente, as rédeas do nosso destino.

Finalmente, o pensamento S5 baseado na Lógica Holística constitui modo complementar de pensar, com o qual o homem visualiza a totalidade dos fenômenos. Como já foi mostrado, totalidades fechadas em unidades constituem o que, realmente, existe em ato. O fato de não se constatar na existência algum fenômeno que corresponda ao conceito analítico de parte constitui argumento definitivo. Naturalmente, a matéria também apresenta-se unitária aos nossos sentidos orgânicos, mas, como também já vimos, ela não se sustenta como totalidade dos entes e dos fenômenos. Nem a consciência nem o tempo nem o ser nem a alma possuem a mesma natureza da matéria. Dessa forma, apenas com o pensamento S5 é que começamos a, realmente, ver o que existe.

Como sugere a forma da superfície da esfera que usamos para representar a consciência, o modo de pensar que ali transita constitui-se, necessariamente, em um modo complementar de pensar, uma vez que apenas como totalidade fechada em unidade viabiliza-se a construção de uma unidade de pensamento ou um pensamento unitário em significado. Esse pensamento é complementar justamente porque os nexos inteligentes definidores da compleição do objeto precisam ser articulados mentalmente até constituir unidade interpretativa dotada de significado. Apenas nesse momento é que a consciência unitária se ilumina com entendimento também unitário.

Esse destaque do caráter complementar do modo S5 de pensar revela-se de fundamental importância para evidenciar que os demais pensamentos possuem caráter dicotômico e não caráter complementar. No pensamento S1, a dicotomia contempla ser e não ser. No pensamento S2, a dicotomia contempla as diferenças estruturais, tipo claro-escuro, alto-baixo, dentro-fora, entre outras. No pensamento S3, temos a dicotomia sistêmica já discutida de causa e efeito e, no pensamento S4, a dicotomia de tese e de antítese. Isso significa que as lógicas que operam no âmbito dimensional focalizam as tensões que a natureza capitaliza, em cada instância, para produzir complexidade. Tensões que apenas a lógica complementar consegue reunir e harmonizar, constituindo organização dotada de estabilidade existencial. Dessa forma, os pensamentos S1, S2, S3 e S4 constituem pensamentos que apenas vislumbram e entendem a parte que lhes corresponde na construção da complexidade, a qual apenas se realiza na instância O5 e, como tal, apenas pode ser visualizada pelo modo S5 de pensar.

Essa distinção entre os pensamentos que visam às partes e o pensamento que visa ao todo constitui um dos ganhos notáveis que o algoritmo da criação propicia para quem se habilitar a pensar e a compreender o todo. As consequências da visualização do mundo pelo prisma do algoritmo da criação são vastas e cruciais em todos os setores da vida, e, simbolicamente, podemos dizer que correspondem à retirada das vendas de um cego depois de uma cirurgia bem-sucedida. Não é possível examinar todas as consequências, mas podemos destacar algumas que nos parecem fundamentais e suficientes para mostrar e evidenciar os ganhos efetivos que a perspectiva potencializa.

Um aspecto notável do algoritmo da criação é que, em razão de constituir estrutura cumulativa orientada do simples para o complexo, ele esclarece como a natureza edifica-se em instâncias sequenciais de crescente complexidade organizativa, mantendo sempre o mesmo modo de ser, o que resulta ser também a única maneira do universo constituir-se na condição de cosmos, isto é, de universo organizado. Dado que o algoritmo é constituído de forma, movimento e quantidade, o tecido universal resulta constituído de nexos inteligentes de coerência geométrica, lógica e matemática. Muitas consequências decorrem desse fato, mas a principal delas é ser por causa disso que o universo pode ser pensado e entendido. Apenas por se tratar de um universo organizado, é que a própria ciência se torna possível.

De outro modo, em razão da estrutura ser cumulativa e cada instância destacada potencializar lógica própria, resulta claro que as lógicas também se organizam do simples para o complexo. Com isso, os padrões de pensamento que patrocinam resultam, da mesma forma, crescentemente complexos. Consequentemente, propiciam percepções e entendimentos cada vez mais elaborados e sutis. Em consequência, fica igualmente disponibilizado esquema ordenador do discernimento que revela cinco níveis de dificuldade crescentes de exercício lógico e cinco níveis também crescentes de capacidade de pensar e de discernir.

Assim, descortina-se o próprio processo histórico de desenvolvimento da racionalidade humana e de conquista da razão. A evolução do discernimento dá-se a partir de S1 e apenas completa-se ao atingir S5. Ora, dado que sabemos que a espécie humana se desenvolveu a partir de hominídeos que não se destacavam dos demais animais, essa classificação da racionalidade e da percepção permite identificar as percepções que são típicas e exclusivas do humano e também aquelas que são comuns a todos os animais. O resultado notável disso consiste em separar com certa clareza o que é humano do que é animal.

Embora pareça-nos recomendável realizar essa separação tomando cuidados metodológicos próprios das lides científicas, e, talvez, até mereça uma ciência própria, algumas coisas podem ser antecipadas. Sem pretender defender que os animais pensem, parece claro que eles possuem percepções semelhantes às humanas. Com certeza, os animais percebem presenças, posto que se desviam dos obstáculos. Isso indica que operam, em alguma medida, a lógica que patrocina no homem o pensamento de padrão S1. Com isso, já se pode afirmar que operar S1 não serve de critério para distinguir o humano dos demais animais. Os animais também operam S2 porque distinguem perfeitamente, por exemplo, quem é da família e quem é estranho. Também as operações S3, que tornam o homem laboral e o habilita a utilizar-se da matéria circundante para ampliar o seu conforto, são operadas, ao menos por alguns animais, que tecem armadilhas, constroem casas de barro e tecem ninhos sofisticados. Apenas no âmbito das operações de padrão S4 surgem iniciativas humanas conscientes de cooperação e de divisão de trabalho, baseadas em livre arbítrio, que parece ser exclusividade humana. Com isso, surgem a organização social, as regras de convivência, os serviços públicos, a justiça, entre outros de mesmo quilate, que estão fora do alcance dos demais animais. Cabe ressaltar que isso não torna as percepções de padrão S4 privativas do humano, uma vez que existem colmeias e colônias de animais que também se valem de distribuição de trabalho, e estes também, tal como o homem, deslocam-se pelo terreno, em busca de alimento, sabendo exatamente o que estão fazendo e como fazer.

Apenas na quinta instância, o pensamento de padrão S5, ao vislumbrar o todo e perceber a consciência, tornando possível a autoconsciência, institui prerrogativa exclusivamente humana, à qual o restante do reino parece não ter acesso.

Mesmo levando em conta que, em cada um dos quatro padrões de pensamento ou de percepção partilhados por homens e por animais, o homem executa inferências elaboradas muito mais complexas do que os animais (o animal percebe presenças e até identifica – operação S1 –, mas não atribui nome ao identificado), resta claro que a capacidade de operar as lógicas dicotômicas, por si só, não distingue os humanos dos não humanos. Apenas as operações S5 resultam típicas e exclusivas do homem, podendo servir de critério distintivo. Quantos homens estão, hoje, habilitados a pensar predominantemente S5?

Diante desse quadro, mesmo mantendo cautela, parece seguro concluir que a realização plena do humano se caracteriza pelo exercício do padrão S5 de pensamento ou, mais precisamente, pelo predomínio do modo S5 de pensamento, frente aos demais modos de pensar que compõem o cardápio de recursos lógicos de que ele dispõe para interpretar e se conduzir inteligentemente no mundo.

Observando os discursos proferidos neste início do século XXI, percebe-se que os pensamentos exarados se concentram na faixa dimensional, de S1 a S4, e que, raramente, encontra-se alguém no qual predomine o pensamento S5. De um modo geral, todos conhecem e executam os cinco modos de pensar, mas a moda indica que os mais ousados e veementes em externar as suas opiniões, geralmente, não se valem de distribuição equilibrada desses modos de pensar, ao contrário, constituem pessoas seduzidas ou viciadas por um dado modo de pensar e, talvez, até mesmo, hipnotizadas pela lógica da instância, possivelmente, sem dar-se conta disso.

Na universidade, onde predominam jovens, a população majoritária divide-se em dialéticos (S4), nas ciências sociais, e sistêmicos (S3), nas ciências exatas, com nítida tendência a se tornarem monológicos. Esse estado de coisas explica-se porque a Academia, que deveria primar pelo viés universalista, deixou-se capturar pelos interesses do sistema produtivo de molde tecnológico, derivado da ciência. A ciência de Einstein foi interpretada como redutora do mundo ao espaço O3 e ao tempo O4, e, consequentemente, os sistemas de ensino não se interessam por mundo situado além disso. Com isso, a Academia privilegia os modos S3 e S4 de pensar e – aqui, a tragédia – forma excelentes técnicos sistêmicos (S3) e excelentes dialéticos evolucionistas (S4), ávidos pela posse de bens materiais e deficitários de ser (S1), de alma (S2) e de consciência (S5).

Uma tragédia que não fica apenas nisso e contamina toda a estrutura social. Dado que a existência ficou reduzida ao mundo visualizado pelos modos S3 e S4 de pensar, quando tais homens lançam-se na disputa pelo poder político, radicalizam seus modos de pensar, percebem que os dois modos resultam antagônicos, porque o pensamento S3, ao privilegiar o sistema, revela-se conservador, e, ao contrário, o pensamento S4, ao privilegiar a história, revela-se evolucionista e revolucionário. Com essa radicalização, surgem as ideologias de direita e de esquerda conhecidas, que infernizaram a vida planetária nos últimos duzentos anos. Com elas, os ideólogos de direita, defendendo a estabilidade e o conservadorismo, em razão da Lógica Sistêmica que entende a estabilidade como necessária para o bom funcionamento dos sistemas, e os ideólogos de esquerda, defendendo a mudança permanente, em razão da Lógica Dialética que revela um curso histórico em permanente transformação. Surgem, assim, as ideologias de orientação capitalista e de orientação socialista, como frutos naturais da absolutização dos modos S3 e S4 de pensar. Quando a esquerda consegue assumir o poder, descobre que o sistema precisa funcionar e ser preservado, caso ela queira se manter no poder. Descobre que o motor será sempre sistêmico e nunca dialético. Com isso, estabelece-se situação esquizofrênica em que a prática precisa ser sistêmica e conservadora, enquanto a mente mantém-se dialética transformadora. É mesmo de enlouquecer, e os exemplos de governos de esquerda tentados no mundo demonstram isso. De fato, ambas as lógicas são inadequadas e incapazes de pensar e gerir o todo, como o exemplo da molécula de água já mostrou[13].

Existe uma historinha dos anos oitenta que sintetiza bem a situação. Certo dia, o cérebro chamou os demais órgãos, defendendo que ele deveria ser coroado o

[13] No horizonte de realização da molécula de água, situa-se a possibilidade de formar oceanos e dar origem à vida. A água evapora, converte-se em nuvens, avança pelo território seco do planeta e precipita-se em chuva vivificante, viabilizando o florescimento da vida vegetal e animal. Cria rios cheios de vida no processo de retorno ao oceano e, enfim, configura um sistema circulatório funcional verdadeiramente orgânico do planeta. Nada disso encontra-se no horizonte de possibilidades de realização de hidrogênio e de oxigênio, tornando evidente que a totalidade se situa além da soma das partes e que as perspectivas das partes, definitivamente, não se aplicam ao todo.

rei do organismo, dado que ele estava na posição mais elevada e operava a inteligência. O coração reagiu: – alto lá, se eu não te irrigar regularmente, em quinze minutos, os teus neurônios vão para o espaço. – Não senhor! Interveio o pulmão: – se eu não substituir o gás carbônico por oxigênio, você vai distribuir água suja. E, assim, a discussão estendeu-se com as razões do fígado, dos rins, do baço, entre outros. Até que, de repente, surpreendentemente, levantou-se o ânus e disse que o rei seria ele. A gargalhada foi geral, e ele simplesmente retrucou: – está bem, a partir de agora, a porta está fechada, não sai mais nada. No dia seguinte, ainda se ouviam risos; no terceiro, silêncio absoluto. No quarto, estavam todos aflitos; no quinto, ficando todos azuis. No sexto, a coroa foi entregue ao vencedor. Embora se trate de uma metáfora, essa historinha tem o mérito de nos advertir sobre quem é que assume o comando, quando partes disputam entre si.

Como o exemplo da molécula de água mostra, nenhuma das partes possui competência e lógica capaz de entender o todo e, menos ainda, de geri-lo, de sorte que todas as ideologias podem ser definidas como tentativas ilegítimas e sofísticas de impor ao todo as lógicas das partes. E olhe-se que não temos apenas ideologias de direita e de esquerda. Dado que o pensamento humano se configura dimensional, alguns homens encantam-se com a lógica da diferença e absolutizam diferenças de classe, de raça, de cor, de sexo, entre outras, e, no extremo, geram excrescência, tais como a tal da ideologia de gênero. Mas também, na primeira dimensão, a Lógica Transcendental, ao visualizar o ser, no verso, percebe indelével a presença do absoluto. Quando essa percepção domina o ser e resulta levada ao extremo, pode gerar fanatismo religioso, virtualmente crente de que aqueles que não servem o seu deus não merecem viver e podem ou devem ser eliminados.

A tragédia social provocada pelas diversas ideologias que assolaram a humanidade nos últimos duzentos anos não deixa dúvidas sobre o preço que estamos pagando pela não contemplação do todo. Nesse sentido político, o algoritmo da criação oferece-nos a sugestão de que cargos de direção, em qualquer esfera de governo, seja no Executivo, no Legislativo, no Judiciário e no Ministério Público, bem como na direção de sistemas públicos de ensino e nos sistemas de comunicação de massa, apenas poderiam ou deveriam ser ocupados por pessoas capazes de entender e operar o todo. Quem não vislumbra a totalidade e se encontra seduzido por alguma das lógicas dimensionais, qualquer que seja ela, encontra-se estruturalmente incapacitado para ver, entender e gerir o interesse coletivo. Quando essa regra não é observada e se colocam no poder pessoas treinadas desde o berço para competir e ganhar dinheiro, não é de surpreender o grau de corrupção que se constata, particularmente em países carentes de contrapesos fiscalizadores.

A questão é onde conseguir pessoas capazes de pensar o todo, se o próprio sistema de ensino não consegue vislumbrá-lo. No plano dos sistemas educacionais, voltados à formação do cidadão, o algoritmo da criação, ao contemplar o humano de forma nua e crua, em sua realidade histórica e estrutural, evidencia questões igualmente cruciais que precisariam ser enfrentadas com realismo. Para início de conversa, é preciso superar a ideia romântica do bom selvagem original. Ao que tudo indica, a formação dos instintos humanos de sobrevivência, como já mencionado, ocorreu em condições de extrema adversidade, nas quais o terror e o medo foram os grandes professores. É sobre essa base instintiva animalesca que se edifica o homo sapiens, acrescentando inteligência ao conjunto e assumindo o desafio de desenvolver discernimento e dominar o novo recurso cognitivo que a natureza lhe facultou.

O processo cumulativo de crescente complexidade do algoritmo sugere que, nos primeiros tempos, a ferocidade instintiva deve ter-se sobreposto à razão, e que esta, paulatinamente, foi-se desenvolvendo e estabelecendo equilíbrio, sendo previsível que, em algum momento, a combinação de instintos ferozes com inteligência crescente tenha gerado o mais terrível e vingativo predador que já pisou no planeta. Com o passar dos séculos, as experiências de cooperação e de divisão do trabalho foram demonstrando as vantagens do convívio comunitário, e os valores de civilidade começaram apaziguando os instintos e, depois, paulatinamente, suplantando-os até conseguir dominá-los e mantê-los, mais ou menos, sob controle. Com maior sucesso em algumas regiões e menor em outras, esse processo de crescente civilidade tem avançado e moldado a história humana conhecida, que bem pode ser caracterizada como fruto desse combate interior entre os apelos de instintos selvagens e o desejo de uma vida superior, em segurança e bem-estar, que a razão descortina estar no espaço de possibilidades cooperativas da espécie.

Agora, nova descrição do algoritmo da criação vem mostrar que a realização plena da condição humana, como racionalidade operadora de inteligência, pode ser atingida, desde que a humanidade aprenda a visualizar, pensar e operar o todo. Com o olhar dimensional que o algoritmo patrocina, torna-se possível ao homem não apenas compreender como funciona o universo no qual está inserido, mas também ter consciência dos papéis que a natureza lhe faculta no processo evolutivo universal. Se, até agora, o processo civilizatório deu-se segundo a lógica inconsciente da natureza e as conjunções mais ou menos aleatórias dos acontecimentos, com a ferramenta representada pelo algoritmo, torna-se possível à espécie assumir as rédeas de sua história.

Basta, para tanto, vigoroso esforço planetário de formalização do uso da razão e da concomitante superação universal da animalidade instintiva. Para isso, seria necessário, de um lado, instrumentalizar os sistemas de ensino, visando ao cultivo e à realização plena do ser e da sua racionalidade, entendida como domínio do modo S5 de pensar, e, de outro, reduzir, paulatinamente, até a completa eliminação, os fatores que promovem a afloração dos instintos animais que constituem nossa herança inescapável e representam o ônus a pagar pela sobrevivência e pelo destaque da espécie.

Se o cultivo do ser e da racionalidade já está, em linhas gerais, delineado nesta proposição de Teoria do Conhecimento e pode-se dar tanto por decisão consciente de lideranças políticas planetárias, capazes de entender as potencialidades envolvidas, bem como por decisão pessoal de cada um, no sentido de investir na evolução do seu próprio discernimento, a outra questão, a de reduzir as condições que provocam a afloração e a persistência dos instintos animais latentes, afigura-se mais problemática.

Uma medida fundamental seria reconfigurar o papel dos sistemas de comunicação de massa que já possuem grande penetração e influência, mas estão sendo usados como instrumentos políticos e ideológicos e, por razões econômicas, privilegiam conteúdos de apelo instintivo e, nesse sentido, operam, justamente, em sentido contrário ao da superação dos instintos, quando deveriam estar operando a serviço da evolução e do aperfeiçoamento da civilização. Trata-se, aqui, de distinguir entre o que é liberdade de comunicação e de acesso à informação e o que é doutrinação e defesa de interesses egoístas de grupos ou de facções. O conceito de totalidade estabelece um índice seguro para repensar esse setor, sendo inadmissível que o bem comum produzido em escolas públicas seja destruído por interesses privados inconfessáveis.

Além disso, é preciso entender que cultivar um ser, a fim de torná-lo um ser humano capaz de realizar-se plenamente como tal, em face do que nos ensina o algoritmo da criação, requer que a criança seja recepcionada na vida, em ambiente acolhedor, e que seu desenvolvimento, em toda a fase infanto-juvenil, seja livre de pressões e de agressões que a obriguem a recorrer à sua bagagem instintiva, para enfrentar condições adversas impostas pelas circunstâncias. É preciso proporcionar à criança condições para desenvolver fatores que dignificam e enobrecem uma condição humana superior, para, assim, dispensá-la de recorrer aos seus recursos de defesa instintivos. Isso não deve ensejar sublimação hipnótica ou ocultação da presença de tais instintos, mas, ao contrário, a sua consideração como realidade inescapável e o seu enfrentamento franco e intencional. O homem que o algoritmo projeta configura-se como um ser plenamente desperto e consciente das suas circunstâncias, possibilidades e limitações, em virtude de autonomia cognitiva intencionalmente conquistada. Um homem assim exige sempre a presença da verdade, embora também entenda a responsabilidade correspondente.

O que precisamos reconhecer é que resulta mais fácil educar de modo adequado e, assim, garantir a formação de um cidadão capaz de dar contribuição positiva ao processo civilizatório, do que tentar, depois, gastar cem vezes mais tentando corrigir o que, talvez, não admita correção. No sentido de enfrentamento da verdade, convém rever o processo de administração da justiça e o próprio sistema carcerário, começando por reconhecer que a supressão da liberdade tem por objetivo proteger a sociedade de alguém que não respeita o protocolo de convivência estabelecido por ela. A supressão da liberdade não pode ser entendida como um ato de vingança ou de castigo contra o infrator, mas como medida de preservação da sociedade. Entre os reclusos, é também necessário distinguir entre aqueles passíveis de recuperação que merecem tratamento compatível – na medida da efetividade desse tratamento – e aqueles que, em razão dos atos praticados, não podem, de maneira alguma, retornar ao convívio social.

Quer parecer-nos que, na medida em que a formação adequada resulte universalizada e o cultivo dos fatores da animalidade seja suprimido ou reduzido, a tendência é que os desajustes se reduzam a casos patológicos merecedores da atenção científica da Genética.

Da mesma forma, é preciso enfrentar a realidade do ímpeto sexual que se manifesta mais forte na juventude. Não adianta ignorar ou sublimar a presença desse impulso e, sim, tratar a questão racionalmente e não deixar o problema exclusivamente sob a responsabilidade de personalidades em formação. Também é preciso reconhecer que uma sociedade desenvolvida não pode admitir a submissão física ou moral de uma pessoa por outra, mediante o argumento da força. De outro modo, não há necessidade de deixar que o impulso sexual se converta em fonte de tensão e desestabilidade individual ou da sociedade e, tampouco, que algum ser humano seja obrigado a comercializar o corpo. Em mundo tecnológico capaz de produzir realidades virtuais indistinguíveis e bonecos infláveis de textura epidérmica, basta que cessemos de tratar hipocritamente a questão para os problemas serem superados.

O algoritmo da criação prescreve, como solução para a humanidade, a religação da mente humana com a realidade do universo, significando isso respeito e observação das leis que regem a natureza e configuram a inteligência organizativa e a inteligência criativa, segundo as quais se dá o processo evolutivo do universo. Com o despertar do ser e a conquista da racionalidade capaz de gerar conhecimento do mundo, na forma de inteligência interpretativa correspondente, a espécie humana credencia-se para assumir e conduzir, conscientemente, a evolução, ao menos, neste quadrante da galáxia. Tenhamos consciência, porém, que, caso desprezarmos a oportunidade e dermos continuidade a esse processo de autoflagelação em curso, ignorando o diferencial que a natureza nos concedeu, o universo não se abalará, e o ser há de encontrar outra opção para realizar os seus desígnios.

CONCLUSÃO

Esta tese propõe um método formal de uso da razão e da faculdade de pensar e há de ser acusada de propor uniformidade para seres dotados de livre arbítrio. A lei da gravidade é também uma lei universal, e a natureza costuma cobrar o preço da vida a quem a desrespeite. Todos os homens são conscientes dela e a levam em conta. Quando alguém não toma os cuidados devidos, paga com a vida. Lamenta-se a perda, mas, em momento algum, alguém propõe a revogação da lei ou insurge-se contra a sentença imposta pela natureza. Isso significa que, quando se trata de leis da natureza, uniformidade e unanimidade revelam-se pertinentes e adequadas. Indica mais: indica que uniformidade e unanimidade, tomadas em si mesmas e como leis da natureza, não inviabilizam a diversidade, como bem atestam a diversidade de fauna e de flora presente no planeta e a forma harmoniosa como uma floresta cheia de vida desenvolve-se.

Como afirmamos desde o começo, o problema está na qualidade do nosso discernimento e, dentro dele, da nossa compreensão do livre arbítrio. Temos pensado que, em razão de possuirmos livre arbítrio, podemos fazer o que nos der na telha e esquecemos que somos frutos do universo e, como tal, incondicionalmente sujeitos às suas leis. Com isso, o livre arbítrio que a natureza nos concedeu não representa um cheque em branco que aceita qualquer coisa, mas apenas a possibilidade de escolher entre alternativas dadas pelas nossas circunstâncias, isto é, entre as alternativas situadas dentro do espaço de possibilidades delimitado pela geometria, pela lógica e pela matemática. Portanto, algo compreensível.

Quem não estiver satisfeito com isso possui três alternativas: ou troca de universo, ou se isola em um universo imaginário particular e não se mete na vida dos outros, ou investe e aperfeiçoa a sua compreensão das leis deste universo compartilhado e se vale dessas mesmas leis universais para gerar, para todos, circunstâncias favoráveis que ofereçam alternativas convenientes.

Como seres individuais, essa decisão de aperfeiçoar o discernimento é uma questão pessoal, de responsabilidade intransferível. As potencialidades do método aqui proposto, em linhas gerais, já estão indicadas no texto, e o nosso testemunho pessoal apenas acrescenta ganho interior em serenidade e em bem-estar que resulta da sintonia com a natureza e da compreensão das circunstâncias que emolduram o contexto e as pessoas, o que evita que se perca tempo com questões irrelevantes e com o que está fora do nosso alcance, sem impedir que se sonhe com o que seja razoavelmente possível.

Somos, porém, membros de uma mesma espécie e vivemos em sociedade por vocação natural e conveniência coletiva, logo, temos à nossa frente – o que constitui nossa responsabilidade exclusiva – o desafio de usar livre arbítrio e consciência para projetar e construir modos de convivência que atendam aos interesses de todos. Para tanto, resulta conveniente e virtualmente indispensável o uso competente da razão e do discernimento, por todos ou, ao menos, por significativa parcela dos membros da espécie. Isso implica, de um lado, o sonho coletivo e universal de busca e de realização da plenitude humana latente em todos nós e, de outro, o imperativo de formar homens capazes de pensar o todo (S5), com habilidade para conduzir o processo.

E aí, amigo, qual é a sua decisão?

Brasília, janeiro/2018.

REFERÊNCIAS

EINSTEIN, Albert. Meus últimos anos. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. 3. ed. Coleção Clássicos de Ouro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017, 270 p.

GADALLA, Moustafa. Cosmologia egípcia: o Universo animado. Tradução Fernanda Rossi, 2003. São Paulo: Madras, 2001.

RODRIGUES, Rubi. As origens egípcias das doutrinas não escritas de Platão. Brasília: Site Segundas Filosóficas, 2015. Disponível em: <http://segundasfilosoficas.org/sem-categoria/as-origens-egipcias-das-doutrinas-nao-escritas-de-platao/>. Acesso em: 5 jan. 2018.

______. Teoria Metafísica do Conhecimento. Brasília: Site Segundas Filosóficas, 2017. Disponível em: <http://segundasfilosoficas.org/sem-categoria/teoria-metafisica-do-conhecimento/>. Acesso em: 5 jan. 2018.

STEINER, Rudolf. Verdade e ciência. Tradução Rudolf Lanz. São Paulo: Antroposófica, 1985, 53 p.