O PROJETO MAÇÔNICO

Procura-se, aqui, responder a três perguntas: com que propósito foi criada a maçonaria, de que forma ela encaminhou o seu projeto e em que ponto esse projeto se encontra hoje.

I – O espírito da época da criação da maçonaria

Como sabemos, a data oficial de criação da maçonaria especulativa está fixada em 1717-1723, período no qual foi criada, formalmente, a Grande Loja da Inglaterra. Apesar disso, existem notícias da existência de lojas maçônicas no século XV e, até mesmo, antes disso. Quanto à doutrina, como também sabemos, as raízes da maçonaria estendem-se ao Egito Imperial. De todas formas, na modalidade de maçonaria especulativa, ela consolida-se no século XVIII, denominado século das luzes, em razão do Iluminismo, que gerou o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade – trilogia que alimentou a Revolução Francesa e acabou incorporada à Ordem, como testemunho do espírito da época.

Embora a Idade Moderna – datada pelos historiadores com início, em 1453, com o fim do Império Bizantino, e com término, em 1789, com a Revolução Francesa – seja caracterizada pelas grandes navegações e pela Revolução Industrial e, em termos políticos, tenha representado a superação do regime feudal, dominado pelo clero e pela nobreza, em termos cognitivos, o período consolida o modo científico de pensar e estabelece o predomínio da razão sobre as crenças e a fé. Ocorre, nesse período, grande transformação lógico-mental, daí, a designação de Iluminismo. No entanto, o Iluminismo e a Modernidade representam resultados de processo de resgate da razão que teve início no século XV, em Florença, na Itália, com o movimento conhecido como Renascença. Embora a Renascença tenha produzido seus maiores frutos no âmbito das artes, em que despontaram Michelangelo, Rafael, Botticelli, Ticiano, Donatello, Giotto e mais duas dezenas de fantásticos artistas, também manifestou-se na ciência, com Leonardo da Vinci e, na filosofia, com Pico Della Mirandola e Marsilio Ficino. Naturalmente, o milagre da Renascença não surgiu do nada, resultou do trabalho cultural da Academia Platônica de Florença, criada sob o patrocínio dos Médici, cujo patriarca sonhava em recuperar, na Itália, o conhecimento grego clássico que tinha sido proibido no Império. Isso foi feito com a tradução das obras de Platão e de Hermes Trismegisto, este, lendário sábio egípcio, no qual repousam, também, as raízes mais antigas da doutrina maçônica. A luminosidade produzida pelo Movimento Neoplatônico de Florença foi tão intensa – em resgate da sensibilidade humana, nas artes, e da racionalidade humana, em filosofia – que gerou o Iluminismo e a Modernidade industrial. Mudou o mundo e moldou o Ocidente, dando-lhe a feição moderna, enaltecendo o homem e a sua genialidade. A Capela Sistina, a Pietá do Vaticano, o David da Galeria, os esboços de Leonardo da Vinci mostravam a grandeza e a pujança que o espírito humano podia alcançar, desde que fosse instruído. Para homens com tal potencialidade, tudo parecia possível. Esse era o clima que envolvia as mentes mais sábias do século das luzes, quando decidiram transformar a maçonaria operativa em maçonaria especulativa, claramente para oportunizar a formação de homens capazes de promover a grandeza humana que a Renascença e o Iluminismo demostravam ser possível[1]. O cultivo do espírito e a genialidade humana, despertos na Renascença, estavam ameaçados de se perder, no século XVIII, com a ascensão vertiginosa da lógica clássica de Aristóteles e do pensamento científico centrado na matéria. O que fazer? A solução encontrada foi aproveitar a maçonaria operativa, que estava em declínio, pela redução de grandes obras, e convertê-la em maçonaria especulativa para, assim, preservar o cultivo da prevalência do espírito sobre a matéria. Os frutos da Renascença decorriam, nitidamente, da sensibilização dos espíritos para a percepção do bem e do belo, e a ciência que se expandia avassaladora, de modo divergente, apontava para tecnologias de ação e de produção.

II – O que a maçonaria fez e ainda faz hoje[2]

Primeiro, ela coloca o neófito em masmorra, o que lhe sugere que algo nele precisa morrer, se quiser ir adiante. Depois, nu e vendado, em completo desamparo, aprende que precisa confiar na Ordem e em quem conhece o caminho. Quando lhe retiram a venda, percebe que existe um caminho que conduz à luz, mas também lhe revelam que, embora guarde dentro de si um cristal precioso, capaz de refletir a luz, nesse momento, não passa de uma pedra bruta coberta de escolhos e imperfeições que precisam ser removidos. Recebe, para tanto, um maço e um cinzel e a advertência de que, com essas impurezas, com essa vibração, não será capaz de sintonizar e de entender nem o que os símbolos da loja guardam nem o que mestres mais experientes podem confidenciar-lhe. É colocado, então, na coluna do norte, e ordenam-lhe que fique em silêncio e apenas observe, observe e observe: deve aprender a ouvir. Deveria ficar ali, em silêncio, observando, não por um ano, mas até que qualquer quebra do ritual e da egrégora passasse a incomodá-lo. Até que sentisse desconforto quando um irmão cochicha com outro durante a sessão, quando alguém fala fora da ordem, quando, inadvertidamente, um celular toca, quando um instrumento cai, quando os malhetes das colunas não repetem, fielmente, o ritmo dado pelo malhete do oriente. Quando essas pequenas coisas começarem a incomodá-lo, é sinal que a sensibilidade foi conquistada e que o aprendiz está apto para seguir adiante.

[1] No link http://segundasfilosoficas.org/sem-categoria/a-obra-prima-de-michelangelo/, o trabalho intitulado A obra-prima de Michelangelo mostra a presença do espírito maçônico na obra do grande escultor.

[2] Segundo o Rito Escocês Antigo e Aceito.

Uma vez instalado na coluna do sul, percebe que, ao ultrapassar as colunas, não entrou em uma sala qualquer, de um prédio qualquer, de uma cidade qualquer. Olha para cima e percebe que não há teto, está diante do universo e que os problemas mudaram de envergadura. Não se trata mais de retirar escolhos e imperfeições, trata-se de entender o universo dentro do qual está situado e precisa movimentar-se. Aparentemente, trata-se de universo organizado, o que significa que é regido por leis universais. Impossível dar-se bem e ter sucesso em universo desconhecido, é preciso compreendê-lo, é preciso saber como surgiu e como funciona. Está, assim, perplexo diante do tamanho do desafio, quando o Venerável Mestre indica-lhe uma estrela de cinco pontas e informa-lhe que antigos mestres testemunharam que, ali, estaria a chave para compreender o universo; ali, estaria a solução de todos os mistérios; ali, estaria a fonte de LUZ capaz de iluminar todos os homens e, segundo a lenda, quem lograsse eliminar todas as suas impurezas e se mostrasse como límpido cristal polido, meramente refletindo, seria capaz de iluminar tudo ao seu redor. O Companheiro olha para si e percebe que ainda possui muitos escolhos e que seu cristal aparece aqui e ali, em pequenas partes, e que essas partes são apenas capazes de refletir pequenos lampejos. É preciso continuar lapidando.

Mas, e a chave? Pergunta-se: será que alguém já decodificou a chave guardada na estrela? Um dia, vai a Mestre e descobre que a chave foi convertida em uma palavra, a qual era conhecida de um antigo mestre que dirigia as obras do templo, mas que, acidentalmente, morreu, e, com isso, a palavra perdeu-se. Nessa ocasião, recebe o título de Mestre e é desafiado a sair pelo mundo, com a missão de encontrar a palavra perdida. Percebe, então, que encontrar a palavra perdida e tornar-se apto a refletir a luz constituem a missão vital do verdadeiro maçom e que levar essa luz a toda a humanidade, a nobre missão da maçonaria.

III – Em que estágio estamos hoje

Eu não sei o que cada um quer ou pode fazer, imagino que cada um obedeça ao que lhe dita a alma. O que nós podemos fazer é dar testemunho do que conseguimos descobrir em nosso esforço de busca da palavra. Não é possível, em uma só palestra, justificar as conclusões, mas é possível mostrar o caminho percorrido e indicar as descobertas feitas, cuja sequência nos trouxe ao ponto em que hoje estamos. Tudo começou com os gregos.

Os gregos clássicos defendiam a ideia de que o universo tinha sido criado por Deus, obedecendo as matemáticas: único modo capaz de gerar um universo organizado. Essas matemáticas contemplavam o cálculo, como ciência da quantidade, a geometria, como ciência da forma, e a cosmologia, como ciência do movimento. Atualmente, designamos essas ciências de Geometria, Lógica e Matemática. Mesmo hoje, com todas as descobertas da ciência moderna, resulta pertinente entender que o universo se desdobre dentro do espaço de possibilidades demarcado por essas três ciências. É por obedecer à Geometria, à Lógica e à Matemática que telescópios permitem entender o que se passa em galáxias situadas a dezenas de anos-luz de distância.

Munido desse olhar matemático, primeiro, olhamos para a estrela e descobrimos, ali, dois números: o número 1, indicativo de que se tratava de uma estrela, e o número 5, relativo às cinco pontas. O número 5 levou-nos ao Egito Imperial porque, lá, eles contavam de cinco em cinco e não de dez em dez, como fazemos hoje. Examinando a mitologia egípcia, descobrimos que os egípcios adotavam não uma estrela, mas um triângulo, o chamado triângulo sagrado, para indicar as forças criadoras do universo, o mesmo triângulo que nos foi apresentado na escola como triângulo de Pitágoras – de lados 3, 4 e 5 – e que possui a propriedade de a soma do quadrado dos catetos corresponder ao quadrado da hipotenusa. Esse triângulo era usado na mitologia para indicar os deuses da criação e o próprio processo de criação: o pai Ozires, a mãe Isis e o filho Hórus.

Em papiro intitulado Matemático, datado do século XVII a.C., encontra-se a seguinte explicação: “Entro três vezes no hekat (um alqueire, medida de volume), um sétimo de mim é somado a mim e eu retorno completamente satisfeito”. Ozires, o pai, o poder fecundador, precisa decair uma, duas, três vezes para formar o volume – o espaço. Isis, o recipiente, a mãe terra, expande tudo de um sétimo, 3 + 3 + 1 =7, e vira 4. O filho Hórus, a natureza criada, revela-se como 5 e retorna ao princípio, retorna ao pai, na condição de totalidade, porque, em grego, pente é 5, mas pente vem de panta, que é todo. Por isso, contavam de cinco em cinco, pois cinco completa um todo. Observe-se que, nesse modelo, o processo de criação começa como 1 – unidade indivisível do pai –, no vértice superior do triângulo, e termina no mesmo lugar, igualmente como 1 – unidade complexa do filho –, isto é, como totalidade complexa feita de partes. Quantitativamente, começa com 1 e termina com 1.

Pitágoras, que viveu 20 anos no Egito, pela sua humildade e seu desejo de aprender, foi iniciado nos augustos mistérios do templo. Quando volta para a Itália, em razão do seu espírito matemático, traduz o triângulo sagrado egípcio em década sagrada pitagórica, expressa pela equação [1 + 2 + 3 + 4 = 10]. Com essa década sagrada, funda comunidade mística de estudos matemáticos que exerceu grande influência política na época e vai fornecer a Platão o paradigma mental que tornou possível a sua grande obra, a qual bem pode ser entendida como racionalização do conhecimento mitológico da tradição.

Para nós, modernos, essa equação representa a forma mais simples de gerar a primeira dezena do sistema decimal, que não existia na época, tendo sido criado no século VII. Analisando a equação, percebe-se que se trata da forma mais sintética de obter-se a primeira dezena do sistema decimal, um sistema no qual essa primeira dezena é tudo o que se precisa conhecer para dominar todo o espaço quantitativo. Isso porque essa dezena replica-se, sem precisar de mais nada, para gerar as demais dezenas, as centenas, os milhares e, assim, conceder acesso a todo o universo quantitativo. Basta conhecer os dez primeiros números, porque todo o resto é apenas repetição – uma solução econômica e genial, para gerar o universo quantitativo.

Quando percebemos esse poder replicador, voltamos para a estrela, pois lembramos que ela é uma forma que também se replica ao infinito. Unindo as cinco pontas da estrela, obtemos um pentagrama. Caso unamos, com retas, os seus ângulos internos, obtemos um novo pentagrama no centro, e isso pode ser repetido ao infinito. Pentagrama e dezena, ficou claro, são estruturas básicas que se replicam ao infinito. Havia, assim, solução igualmente econômica e genial, também, para o universo da forma.

Ora, se existe uma estrutura matemática básica que se replica ao infinito e é capaz de gerar todo o universo quantitativo e se existe uma estrutura geométrica que, como forma, também replica-se ao infinito, estamos, parece, aproximando-nos de uma estrutura básica virtualmente capaz de explicar tudo o que existe, capaz de replicar-se e formar tudo o que existe. Se os gregos estavam certos, ao defender que Deus criou tudo com as matemáticas, isto é, com a Geometria, a Lógica e a Matemática, faltava apenas uma estrutura básica de lógica que também fosse replicante. Pois essa estrutura já existia.

Havia uma tese que defendia que as lógicas eram cinco. Seu autor é o engenheiro e matemático brasileiro Sérgio Luiz Coelho de Sampaio, que faleceu em 2001. Para encurtar a história, quando reunimos tudo, resultou a seguinte estrutura perfeitamente simétrica:

No sentido da quantidade, a estrutura matemática de Pitágoras resultava perfeita. No sentido da forma, foi necessário adotar o critério geométrico dimensional, já pensado por Platão, que mostra, de modo adequado, as amplitudes necessárias para comportar o mundo conhecido[3]. A ciência já caracteriza o espaço e a matéria como tridimensionais, e Einstein introduziu o tempo na ciência como sendo a quarta dimensão da realidade. O que a década sagrada de Pitágoras mostrava é que, além da terceira e da quarta dimensões, que a ciência já levava em conta, para contemplar o mundo em toda a sua extensão, também era preciso considerar a primeira e a segunda dimensões, além da totalidade. Quando estudamos as lógicas de Sampaio, descobrimos que os padrões lógicos correspondiam, precisamente, aos padrões de movimento típicos próprios de cada amplitude dimensional. Os movimentos inferenciais das lógicas – as operações mentais das lógicas – correspondiam, precisamente, aos padrões de interação típico de cada uma das amplitudes dimensionais[4]. A conclusão resultou óbvia: o modelo estava fechado.

[3] Para visualizar as amplitudes dimensionais indicadas, basta pensar em reta ideal, em plano, cubo, cubo em movimento e superfície da esfera, elementos geométricos indicativos das amplitudes crescentes e respectivas, disponibilizadas pelo desdobramento dimensional.

[4] A relação entre amplitude e padrão lógico funciona tal como o rádio e a emissora: é preciso sintonizar a mesma frequência. Nesse caso, é preciso usar a lógica certa para ter acesso ao conteúdo da instância.

Estava descoberta e formalizada a estrutura básica, lógica, geométrica e matemática que, replicando-se a si mesma, podia explicar como, de forma econômica, o universo evoluiu do simples para o complexo, isto é, como formou-se a primeira partícula quântica, como elas poderiam ser reunidas para formar a primeira partícula atômica, como partículas atômicas reúnem-se para formar átomos, como átomos combinam-se para gerar células, moléculas, organismos, planetas, galáxias e o próprio universo. Se os gregos estavam certos, ao afirmar que Deus criou o mundo pelas matemáticas, parece ser esse o algoritmo da criação do qual ele se utilizou. Depois de 40 anos de estudo e de 20 anos de maçonaria, estou convencido de que esse algoritmo da criação constitui versão moderna, de compleição científica, da palavra perdida cultivada pela maçonaria. Esse é o verbo que era no princípio. Quando se olha a história, percebe-se que, toda vez que os homens lograram alguma compreensão desse verbo, desse algoritmo da criação, a humanidade deu um salto civilizatório e experimentou uma fase de esplendor cultural. Foi assim no Egito Imperial, na Grécia Clássica e no Renascimento.

Como afirmamos no início, essa exposição não pretende transmitir compreensão plena desse algoritmo. Isso requer estudos muito mais detidos. Podemos, entretanto, dar uma ideia do valor estratégico desse saber cultivado, perseguido e preservado pela maçonaria, usando-o no exame do problema concreto de construção do templo, que desafia o Mestre Maçom.

Se esse algoritmo define como a existência estrutura-se e evolui em camadas de crescente complexidade, as cinco lógicas indicadas resultam ser também crescentemente complexas e indicam os padrões de pensamento crescentemente esclarecedores que a humanidade precisa conquistar para atingir pleno domínio da razão. Segundo Sampaio, a história humana é a história do desvelamento e do domínio das lógicas facultadas à espécie. A lógica mais simples é a lógica transcendental; a segunda, a lógica da diferença; a terceira, a lógica clássica ou sistêmica; a quarta, a lógica dialética ou da história; e a quinta, a lógica holística ou da totalidade.

Plotando em gráfico a história do pensamento, verifica-se que, no Período Imperial, predominava a Lógica Transcendental, que preside a intuição e faculta pensar a relação dos homens com os deuses – os quais, na Antiguidade, viviam no Olimpo, mundo transcendente ao mundo dos homens. Ao pensar o que está além, essa lógica potencializa o pensamento religioso. Com o fim dos impérios, vem a Idade Média, na qual a lógica predominante é a Lógica da Diferença, que faculta dicotomias, como bem-mal, corpo-alma. O próprio governo é cardeal e príncipe. Com o advento da Modernidade, resgata-se a Lógica Clássica de Aristóteles, que potencializa os sistemas. A Lógica Clássica toma conta de tudo, mostra que a estabilidade entre causa e efeito permite criar máquinas e, assim, fundamenta o pensamento científico. É a lógica que possibilita a revolução industrial. Finalmente, com o advento e com a universalização das ideias comunistas e socialistas, a partir de 1848, espalha-se um novo modo de pensar que prioriza o processo histórico e os conflitos humanos que a história enseja. Esse modo de pensar é suportado pela quarta lógica, a Lógica Dialética, que permite pensar a história. Com sua universalização, surge um novo e diferenciado período civilizatório, o qual podemos designar de Pós-Modernidade.

Essa é a lógica, hoje, predominante no Ocidente. A crise que estamos vivenciando, com a superação do comunismo e a perda de credibilidade das ideias socialistas, evidenciada na eleição de Trump, nos Estados Unidos, e de Bolsonaro, no Brasil; na opção pelo Brexit, no Reino Unido; e nos governos de “tendência direitista”, na Itália, na Polônia, no Paquistão, além do descrédito geral da social democracia na Europa, está, no fundo, refletindo a crise do modo dialético de pensar. Esse modo de pensar esclareceu muitas coisas, mas não serve para tratar todas as coisas. Na verdade, por desconhecer o algoritmo da criação e o processo de evolução lógica, a humanidade acabou absolutizando cada nova lógica dominada, o que resultou em equívocos monumentais: elas não são concorrentes, são complementares na construção do todo. Todas são necessárias, cada uma no seu devido lugar.

Tornar absoluta a Lógica Transcendental resulta em dogmatismo religioso tipo – quem não serve ao meu deus é inútil e pode ser eliminado. Tornar absoluta a Lógica da Diferença resulta em maniqueísmo ou em concepções, como essa tal ideologia de gênero, com o sexo alçado à mais importante medida do universo. Absolutizar a Lógica Clássica resulta em positivismo e em capitalismo selvagem, em ideologias de direita. Absolutizar a Lógica Dialética resulta nas chamadas ideologias de esquerda. O que o algoritmo da criação está indicando é que a humanidade está superando as ideologias das partes e dirigindo-se à conquista da lógica do todo. Não há guinada para a direita, a humanidade está andando para a frente e não voltando para trás. Isto é, está em via de superar todas as ideologias e aprender a pensar o todo. Dado que essas são as leis com as quais se edifica o universo, são também as lógicas que instrumentalizam a razão humana, de sorte que, quando conquistar a lógica do todo, a espécie humana terá completado o ciclo de desvelamento e de conquista da razão e, a partir de então, estará pensando metodicamente, sabendo para que serve cada lógica e cada modo de pensar: terá a cabeça organizada. O templo da razão, cuja construção foi interrompida, estará completo, e a maçonaria, finalmente, poderá levar a luz da estrela a iluminar todos os homens.

IV – Palavras conclusivas

Embora as palestras encerrem-se no parágrafo anterior, para preservar um tempo razoável de exposição, as discussões que se seguiram revelaram a persistência de duas dúvidas básicas a dificultar o entendimento necessário do que se pretende transmitir: uma sobre o que seja, objetivamente, o algoritmo da criação e outra sobre a necessidade e a utilidade de pensar a totalidade. Em texto escrito, livre dos limites de exposição oral, o que se pode dizer, em extensão razoável a um artigo, é o seguinte.

Quanto ao pensamento do todo, podemos utilizar o exemplo da molécula de água, para evidenciar os prejuízos causados pela carência de perspectiva focada na totalidade e o privilégio de perspectiva analítica voltada para as partes, tal como recomenda o padrão científico vigente. Como sabemos, a nossa ciência, voltada essencialmente para o estudo da matéria, é analítica, supondo que o conhecimento das partes constitutivas dos fenômenos permita entender as suas propriedades. O proceder científico conduz à fragmentação do todo, em busca das partes. No caso da molécula de água, como também sabemos, os elementos constituintes são um átomo de oxigênio e dois átomos de hidrogênio. Analiticamente, oxigênio e hidrogênio são considerados partes, mas, de fato, são também totalidades bem constituídas, para poderem combinar-se e formar a molécula. Portanto, a molécula não resulta da reunião de partes, mas, sim, da inteligente articulação de totalidades bem constituídas, embora pertencentes a um plano de menor complexidade que a molécula: o plano dos átomos. Esse fato evidencia que não existe, no universo, algo que corresponda ao conceito analítico de parte. Pode ser demonstrado que o universo só admite existência na forma unitária de totalidade. Logo, se não pensarmos as coisas como totalidades, não estaremos focando a realidade.

A par disso, os espaços de possibilidades de hidrogênio, oxigênio e água são distintos, pois os três são totalmente diferentes um dos outros. O hidrogênio, na forma de plasma, pode gerar uma estrela, dispersar calor e até produzir planetas. Na forma de combustível, pode impulsionar foguetes e movimentar motores. Na forma de bomba, pode produzir uma explosão atômica. Em linhas gerais, este é o espaço de possibilidades do hidrogênio. O oxigênio, de outro lado, na forma de ozônio, protege a vida do planeta dos raios do sol, fornece a atmosfera na qual a vida floresce, retira as impurezas de nosso organismo na respiração e possui aplicações industriais diversas, permitindo que mergulhemos nos oceanos e nos aventuremos na estratosfera. Este, em linhas gerais, é o espaço de possibilidades do oxigênio. No horizonte de realização da molécula de água, situa-se a possibilidade de formar oceanos e dar origem à vida. A água evapora, converte-se em nuvens, avança pelo território seco do planeta e precipita-se em chuva vivificante, viabilizando o florescimento da vida vegetal e animal. Cria rios cheios de vida no processo de retorno ao oceano e, enfim, configura sistema circulatório funcional verdadeiramente orgânico do planeta. Como se observa, estamos diante de três âmbitos existenciais completamente distintos. O horizonte de realização da água não se encontra no horizonte de possibilidades de realização de hidrogênio e de oxigênio. Isso torna evidente duas coisas: primeiro, que a totalidade se situa além da soma das partes, posto que gera realidade que transcende a realidade das partes. Segundo, que as perspectivas das partes, aquilo que as partes vislumbram e entendem por realidade, ainda que se trate de hidrogênios e de oxigênios sábios, definitivamente, não se aplicam ao mundo da molécula de água. O olhar e a sabedoria da parte são inúteis no âmbito do todo.

Quando o sistema educacional forma mentes analíticas, a única totalidade ao seu alcance é a totalidade própria do aluno. Nessa totalidade individual, o egoísmo resulta ser legítimo, uma vez que cada um precisa salvaguardar-se e preservar a integridade sem a qual não sobrevive. Quando, além disso, não lhe ensinam a perceber a totalidade e os diferentes níveis de complexidade que tais totalidades engendram na construção da realidade total, o resultado é uma pessoa que apenas pensa em si e cujo propósito de vida é dar-se bem. Com essa formação, é chamado, depois, a gerir totalidades outras, tais como a da família, do condomínio, da empresa, do município, do estado ou da nação das quais ele é apenas parte. O resultado de tais gestões não poderia ser diferente da que se constata na prática, particularmente entre políticos de todos os quadrantes. Como o exemplo da molécula de água mostra, nenhuma das partes possui competência e lógica capaz de entender o todo e, menos ainda, de geri-lo, se não for instruído convenientemente com capacidade de distinguir metodicamente onde cabem interesses pessoais e onde se impõem interesses coletivos, do todo.

Quanto ao algoritmo da criação, a questão é mais difícil de ser resolvida. O domínio pleno do algoritmo e de suas potencialidades exige compreender a visão de mundo que ele patrocina e dentro da qual ele faz sentido e, ainda, dominar a teoria metafísica do conhecimento que ele potencializa. Para possibilitar a transmissão desse conhecimento, estamos projetando uma escola superior de filosofia, que será denominada Academia Platônica de Brasília, cujo processo de ensino-aprendizagem ainda não está disponível, mas preconiza a formação de mentes harmonizadas no seu ser, no seu pensar e no seu agir. Estima-se, em três anos, a duração desse processo formativo.

De todo modo, já estão disponíveis, em nosso site de trabalho, dois artigos intitulados A Ordem [http://segundasfilosoficas.org/sem-categoria/a-ordem/] e Teoria Metafísica do Conhecimento [http://segundasfilosoficas.org/sem-categoria/teoria-do-conhecimento-ii/], que devem desempenhar papel central nas duas fases iniciais de formação da Academia. Com alguma dedicação, estimamos ser possível extrair deles uma ideia mais clara sobre o algoritmo.