Existe algo ocorrendo globalmente que necessita de definição

Thomas L. Friedman – Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

 Com tantos protestos sociais espontâneos irrompendo por toda parte, desde a Tunísia até Tel Aviv, de Londres, Atenas, Santiago, Madri, Paris, Brasília e Wall Street, é evidente que existe algo ocorrendo globalmente que necessita de definição. Estão em circulação duas teorias unificadoras que me intrigam. Uma delas diz que isso é o início da “Grande Ruptura”. A outra afirma que tudo o que está ocorrendo faz parte da “Grande Mudança”. Você decide.

Paul Gilding, ambientalista australiano e autor do livro “The Great Disruption” (A Grande Ruptura), argumenta que essas manifestações se constituem em um sinal de que o atual sistema capitalista obcecado com o crescimento está atingindo os seus limites financeiros e ecológicos. “Eu vejo o mundo como um sistema integrado, de forma que não enxergo esses protestos, a crise da dívida, a desigualdade, a economia ou a mudança climática de forma isolada. Isto, sem falar nos elevados níveis de corrupção nas estruturas de Estado, que incidem sobre os países emergentes (África do Sul, Argentina, Brasil, China, Egito, Indonésia, Índia, Irã, México, Nigéria, Paquistão e outros) que pioram muito a qualidade de vida dessas sociedades e agravam a pobreza das populações (inflação, criminalidade, desperdícios de oportunidades e recursos, desqualificação nos serviços públicos essenciais), na impunidade, fragilizam precárias democracias, direitos fundamentais, segurança econômico-social e segurança jurídica. O nosso sistema está passando por um processo doloroso de ruptura”, afirma Gilding. E é isso o que ele quer dizer com o termo Great Disruption. “O nosso sistema de crescimento econômico, de democracia inefetiva, de sobrecarga do planeta Terra – o nosso sistema – está devorando a si próprio vivo. O movimento que se espalha nos Estados Unidos o Occupy Wall Street (Ocupar Wall Street) é como aquela criança da história dizendo aquilo que todos sabem, mas têm medo de dizer: o imperador está nu. O sistema está falido. Pensem sobre a promessa do capitalismo global de mercado. Se deixarmos o sistema funcionar, se permitirmos os ricos ficarem mais ricos, se deixarmos que as corporações se concentrem nos lucros e que a poluição continue ocorrendo sem taxação e contestação, todos teremos uma vida melhor. Pode ser que a riqueza não seja igualmente distribuída, mas os pobres ficarão menos pobres, aqueles que trabalharem mais arduamente conseguirão empregos, os que estudarem mais obterão empregos melhores e nós contaremos com riqueza suficiente para consertar o meio ambiente.

“Mas o que estamos presenciando agora – de forma mais extrema nos Estados Unidos, mas basicamente no mundo inteiro – é a maior de todas as quebras de promessas”, acrescenta Gilding. “Sim, os ricos estão ficando mais ricos e as corporações estão lucrando – e os executivos delas são regiamente recompensados. Mas, enquanto isso, a situação do povo está piorando – a população está se afogando em dívidas referentes à casa própria ou à educação –; muita gente que trabalhou duro está desempregada; muitos que estudaram bastante não conseguem obter um bom emprego; o meio ambiente está sendo cada vez mais danificado; e as pessoas estão percebendo que os seus filhos ver-se-ão em uma situação ainda mais difícil do que os pais”.

“Esta onda particular de protestos poderá crescer ou não, mas o que não desaparecerá é a ampla coalizão daqueles indivíduos para os quais o sistema mentiu e que agora acordaram. Não são apenas os ambientalistas, os pobres, ou os desempregados. É a maioria das pessoas, incluindo aquelas da classe média com alto nível educacional, que estão sentindo na pele os resultados de um sistema que fez com que todo o crescimento econômico registrado nas últimas três décadas fosse parar no bolso da parcela de 1% da população que ocupa o topo da pirâmide de distribuição da riqueza”.

Mas John Hagel III, vice-diretor da instituição Center for the Edge, em Deloitte, e John Seely Brown veem as coisas de forma um pouco diferente. No seu livro recente, “The Power of Pull” (algo como, “O Poder da Retirada”), eles sugerem que nós estamos nos estágios iniciais de uma “Grande Mudança”, precipitada pela fusão da globalização com a Revolução das Tecnologias de Informação. Nos estágios iniciais, nós experimentamos essa Grande Mudança como uma pressão que se acumula, deteriorando o desempenho e provocando um aumento de estresse porque nós continuamos a operar com instituições e práticas que são cada vez menos funcionais – de maneira que o surgimento de movimentos de protesto não é nenhuma surpresa.

No entanto, a Grande Mudança desencadeia também um enorme fluxo global de ideias, inovações, novas possibilidades de colaboração e novas oportunidades de mercado. Esse fluxo está ficando cada vez mais intenso e rápido. Eles argumentam que, atualmente, a exploração do fluxo global se tornou um fator fundamental para a produtividade, o crescimento e a prosperidade. Mas, para explorar esse fluxo de maneira efetiva, todo país, toda companhia e todo indivíduo precisa aumentar constantemente os seus talentos. “Nós estamos vivendo em um mundo no qual o fluxo prevalecerá e derrubará todos os obstáculos à sua frente”, afirma Hagel. “À medida que o fluxo ganha impulso, ele destrói as preciosas reservas de conhecimento que antigamente nos proporcionavam segurança e riqueza. Ele nos conclama a aprender mais rapidamente com trabalho conjunto e a retirar de nós próprios uma quantidade maior do nosso verdadeiro potencial, de maneira tanto individual quanto coletiva. Isso é algo que nos entusiasma com as possibilidades que só podem ser concretizadas com a participação em uma gama mais ampla de fluxos. Essa é a essência da Grande Mudança”.

Sim, as corporações contam atualmente com acesso a softwares, robôs, automação, mão-de-obra e talento intelectual mais baratos do que nunca. Portanto, a obtenção de um emprego exige mais talento. Mas a contrapartida disso é que indivíduos em qualquer lugar do mundo podem acessar o fluxo para fazer cursos online da Universidade Stanford mesmo se estiverem em uma vila na África, a fim de criarem uma companhia com clientes espalhados por toda parte ou para colaborarem com pessoas também dispersas pelo mundo. Nós estamos com mais problemas do que nunca, mas também com mais instrumentos para solução de problemas do que nunca.

Portanto, temos diante de nós duas narrativas. Uma focada na ameaça, a outra na oportunidade, mas ambas envolvendo mudanças colossais.

Gilding é, no fundo, um otimista. Ele acredita que, embora a Grande Ruptura seja inevitável, a humanidade funciona melhor em épocas de crise, e, assim que esta chegar com toda força, nós estaremos à altura do desafio e criaremos uma mudança econômica e social de potencial transformador (utilizando as ferramentas da Grande Mudança).

Hagel é também um otimista. Ele sabe que a Grande Ruptura pode estar pairando sobre nós, mas acredita que a Grande Mudança criou também um mundo no qual uma quantidade maior de pessoas dispõem das ferramentas, dos talentos e do potencial para superar essa crise.

O meu coração está com Hagel, mas a minha cabeça diz que seria arriscado ignorar Gilding.

Você decide.

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