A REPÚBLICA DE PLATÃO, O ESTADO IDEAL

 

 A. R.  SCHMIDT  PATIER

 CONCEPÇÃO PLATÔNICA DE REPÚBLICA

O encontro de Platão (427-348 a.C.) com Sócrates foi um momento decisivo em sua vida. Ele tinha sido criado com conforto e em meio à riqueza. Era um jovem belo e vigoroso, chamado Platão, dizem, por causa da largura dos ombros; distinguira-se como soldado e por duas vezes ganhara prêmios nos jogos ístmicos. Uma adolescência dessas não costuma produzir filósofos. Mas Platão era um caso especial. Era um grande admirador da sabedoria de seu mestre, Sócrates.

Ele estava com 28 anos quando o mestre morreu; aquele trágico fim de uma vida tranquila deixou sua marca em todas as fases do pensamento do discípulo. Aquilo o enchera de tamanho desprezo pela democracia, tamanho ódio pelas massas, que nem mesmo sua linhagem e sua criação aristocrática haviam despertado nele; levara-o a uma decisão catônica de que a democracia deveria ser destruída para ser substituída pelo governo dos mais sábios. A preocupação de sua vida passou a ser a procura de um método pelo qual os mais sábios e melhores pudessem ser descobertos e, depois, habilitados e persuadidos a governar.

Entretanto, os seus esforços para salvar Sócrates haviam feito com que ele se tornasse suspeito aos olhos dos líderes democráticos; seus amigos insistiram que Atenas não era segura para ele e que aquele era um momento admiravelmente propício para que ele corresse o mundo. E assim, naquele ano de 399 a.C., ele partiu. Para onde foi, ninguém soube ao certo. Talvez Egito, Sicília, Itália e Índia.

Voltou a Atenas em 387 a.C., um homem de 40 anos, e por onde andara, o mundo inteiro soube, pois Platão o contou em prosa mais bela do que poesia.

A ANÁLISE DA ESTRUTURA DA REPÚBLICA

Platão aspirava a construir uma República que fosse a cidade ideal, organizada segundo as leis da justiça e da harmonia, cidade na qual cada habitante deveria preencher uma função precisa e específica. Essa reforma política sonhada por Platão nunca ultrapassou o estado de projeto. Mas ela continua mesmo hoje e para o futuro um dos inestimáveis tesouros do mundo.

O melhor deles – a República – é um tratado completo, Ali Platão está reduzido a um libro; nele encontramos a sua metafísica, sua teologia, sua ética, sua psicologia, sua pedagogia, sua política, sua teoria da arte. Nele encontramos problemas exalando modernidade e sabor contemporâneo, comunismo e socialismo, feminismo, o controle de natalidade e eugenia, problemas nietzscheanos de moralidade e aristocracia, problemas rousseaunianos de retorno à natureza e educação indeterminista, élan vita bergsoniano e psicanálise freudiano – está tudo ali. É um banquete para a elite, servido por um anfitrião generoso.

A REPÚBLICA COMO IDEAL POLÍTICO

A República termina após mais uma discussão das artes e outro argumento sobre a indestrutibilidade da alma. Mas todas as almas têm de escolher uma nova vida, mas após cruzarem o Rio Lete esquecem o que aconteceu e, assim, começa uma nova vida. Mas devemos ter cautela, a República constitui de várias maneiras uma utopia, e Platão teve plena e perfeita consciência disso.

E agora, o que vamos dizer de toda essa utopia que vai de Platão aos nossos dias? Ela é factível? Será que possui quaisquer aspectos praticáveis que possamos aproveitar no presente? Já foi posto em prática em algum lugar ou até certo ponto?

Pelo menos a última pergunta deve ser respondida em favor de Platão. Durante mil anos, a Europa foi governada por uma ordem de guardiães consideravelmente parecida com aquela imaginada pelo nosso filósofo. Na Idade Média, era costume classificar a população da cristandade em “laboratores” (trabalhadores), “bellatores” (soldados) e “oratores” (clero). O último grupo, embora pequeno em número, monopolizava os instrumentos e as oportunidades de cultura e governava com um poder quase ilimitado, metade do continente mais poderoso do globo. Os membros do clero, como os guardiães de Platão, eram colocados em postos de mando, não por sufrágio do povo, mas pelo talento demonstrado nos estudos e na administração.

Na segunda metade do período em que governaram, os membros do clero se achavam tão livres de preocupações familiares quanto o próprio Platão poderia desejar; e, em certos casos, parece não ter sido pouco o uso que faziam da liberdade de reprodução concedida aos guardiães. O celibato fazia parte da estrutura psicológica do poder do clero; porque, de um lado, seus componentes ficavam livres do egoísmo estreito das famílias, e, de outro, sua aparente superioridade diante dos apelos da carne aumentava a admiração reverente que os leigos lhes dedicavam e a disposição destes em desnudarem suas vidas ao confessionário.

Com esse corpo de doutrina, os povos da Europa foram governados praticamente sem apelar para a força, e aceitavam tanto esse governo que durante mil anos contribuíram com abundante apoio material para seus governantes e não pediram ao governo o direito de opinar. E essa aquiescência não se limitava à população em geral; mercadores e soldados, senhores feudais e pobres civis ajoelhavam-se, todos, diante de Roma. Era uma aristocracia de invulgar sagacidade política; criou, provavelmente, a mais maravilhosa e poderosa organização que o mundo já conheceu.

Os jesuítas, que durante algum tempo governaram o Paraguai, eram guardiães semiplatônicos, uma oligarquia clerical cujo poder derivava da posse do conhecimento e de capacidade em meio a uma população indígena.

E por várias décadas o Partido Comunista, que governou a Rússia após a Revolução de 1917, tomou uma forma estranhamente parecida com a República de Platão. Construíram uma pequena minoria, mantida unida quase que por causa da convicção ateísta, brandindo as armas da ortodoxia, devotados à sua causa com o mesmo ardor com que qualquer santo se dedica à sua e levando uma existência severa, enquanto governavam metade do território da Europa.

Esses exemplos indicam que, dentro de limites e com modificações, o plano de Platão é perfeitamente exequível; e realmente, ele mesmo o baseava em grande parte na prática, observada nas viagens que fizera. Ele ficara impressionado com a teocracia egípcia; ali estava uma grande e antiga civilização governada por uma pequena classe sacerdotal.

Em suma, Platão deve ter sentido que, ao propor seu plano, não estava fazendo uma melhoria impossível das realidades que seus olhos haviam contemplado.

Publicado originalmente em Brasília, na revista A Egrégora de dez/2008 – jan/fev/2009.

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